segunda-feira, 20 de junho de 2011

Saudade



Retalhos de lembranças que já se foram
Onde as dores já se fizeram escuras e crescidas
(ainda bem não?)
Fazem o espírito triste a recordar seu banzo
Era bom, como era, sentir o tempo passar
Sem saber que o amanha poderia chegar

Sim, mas os pedacinhos se fazem lembrar
Lampiões alumiam as doces recordações
Ao me acordar de um sonho bom
No sentir o cheiro de pão da padaria
Nos retratos alegres na sala de estar
Nas tardes de ventos quentes a soprar

Logo, sem saber o porquê, escorrego
A um passado fragmentado da memória
Num tocar da alma que se faz saudosa
E começa, sem mais nem porque, a chorar
Por quem e por dias que insistiram em ficaram lá
Fazem de mim criança, quão bom é relembrar...

Se pudesse, criaria outros infinitos recordares
Só para outra vez, na embriagues de um futuro
Valer-me mais outras mil vezes das lembranças 
Num ir e vir do coração, sem mão, a velejar
Em um presente a se fragmentar em passado
Pudesse eu, outras mil vezes, pelo agora chorar...

Fernando Wolf

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Felicidade


Talvez a felicidade seja um sopro eventual e posteriormente se faça perene somente nas lembranças felizes. Por momentos, fugimos dela e, por outros, procuramos a felicidade em todos os lugares, em todos os momentos, com a inevitável voracidade forjada por nossa incompletude. Quem sabe a felicidade ocorra quando nos expandimos ou quem sabe encontra-se quando procuramos no intimo do nosso ser. A felicidade mais profunda talvez não se dê somente de momentos alegres, poderia (?) também advir de nossos mais intrínsecos tormentos por seus conseqüentes crescimentos. Alicerces mais firmes, pessoas mais felizes (?).
Sentimentos belos se entremeiam a novelos de discórdia e a vida clama por se fazer de glórias e trazer a felicidade à tona. Um sempre querer do explodir na garganta dum sentimento que é de pouca serventia quando represado, pois se não compartilhado se faz somente palavra tão findável e efêmera. Nada assim é sentido, nem percebido, se torna só um signo jogado ao esmo. Mas quando a felicidade é mostrada, ela se faz de adaga e penetra no coração num extravasar do que há de mais belo e pleno. Tem-se um derramar de vida, de amor, de tudo o que há de mais nobre em se sentir.
Quando se compartilha felicidade se ama e se iluminam as relações... Dá-se então uma resposta à vida com a dignidade de um ser que se intitula feliz.





Fernando Wolf

PS: Baseado no filme "Into the Wild", do garoto da foto (verídica)  Christopher McCandless

terça-feira, 14 de junho de 2011



Chega um dia a placidez confortante
Onde a luz se faz brilhante e grava na retina
(outra vez...)
Que o amor se faz de água e de pedra
Pois, imagina-se um fim, que não se tem
Sem a indiferença e com a cara desnuda a tapa
Colocamos agora pedras... plúmbeas e duras...
E nas pedras jogadas, se fazem lembradas
As marcas de cada pingo por sobre elas
Dos aguaçais desenhados em rochas ígneas
Que marcaram um dia os nossos corações

É tudo rarefeito ainda...

Talvez um dia ventos soprem a apatia
E os cabelos fluam com a brisa morna
Da indiferença que sopra por sobre os vales
Nas montanhas frias e planas outra vez
Num sempre recomeçar das almas
Um sempre brotar das sementes do junco
Num sempre moldar de águas e rochas
Num perene mundo velho, mundo novo
Talvez um dia...

Fernando Wolf

sábado, 11 de junho de 2011

A Inês




Não me sorrias à sombria fronte,
Ai! sorrir eu não posso novamente:
Que o céu afaste o que tu chorarias
E em vão talvez chorasses, tão somente.

E perguntas que dor trago secreta,
A roer minha alegria e juventude?
E em vão procuras conhecer-me a angústia
Que nem tu tornarias menos rude?

Não é o amor, não é nem mesmo o ódio,
Nem de baixa ambição honras perdidas,
Que me fazem opor-me ao meu estado
E evadir-me das coisas mais queridas.

De tudo o que eu encontro, escuto, ou vejo,
É esse tédio que deriva, e quanto!
Não, a Beleza não me dá prazer,
Teus olhos para mim mal têm encanto.

Esta tristeza imóvel e sem fim
É a do judeu errante e fabuloso
Que não verá além da sepultura
E em vida não terá nenhum repouso.

Que exilado - de si pode fugir?
Mesmo nas zonas mais e mais distantes,
Sempre me caça a praga da existência,
O Pensamento, que é um demônio, antes.

Mas os outros parecem transportar-se
De prazer e, o que eu deixo, apreciar;
Possam sempre sonhar com esses arroubos
E como acordo nunca despertar!

Por muitos climas o meu fado é ir-me,
Ir-se com um recordar amaldiçoado;
Meu consolo é saber que ocorra embora
O que ocorrer, o pior já me foi dado.

Qual foi esse pior? Não me perguntes,
Não pesquises por que é que consterno!
Sorri! não sofras risco em desvendar
O coração de um homem: dentro é o Inferno.


Lord Byron

quinta-feira, 9 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A menina e o mar



Marta era uma adolescente qualquer de uma cidade qualquer. Sua rotina era comum, entre o colegial e o shopping, assim como eram suas futilidades juvenis. Com uma vida pela frente, queria que a sua fosse com brilho, diferentemente da dura realidade que seus pais enfrentavam dia a dia para pagar as contas. Ela usava seu tempo com a displicência inocente de uma jovem linda cheia de sonhos.
Largara o balé que já fora a essência de sua vida na sua não distante infância. Esses tipos de passatempos já não lhe interessavam mais como outrora. Agora havia garotos, sapatos, glamour, revistas, modelos, um mundo a descobrir. Havia um quê de pressa, muitas experiências para uma menina só. Não queria que sua juventude passasse em vão. Queria sim a aventura de um amor fugaz, embebedar-se com drinks de chocolate, conhecer lugares por um mundo de encanto, queria viver.
Realmente tinha a beleza a seu favor, domava os rapazes da vizinhança qual flauta frente às perigosas najas. Tinha a inveja das amigas, só não o sapato das também invejadas. Passou a inebriar-se com o elixir das festas mais badaladas, com “drops animados” e destilados coloridos. Conquistou amigos muitos aos quais tinha dificuldade de guardar nomes, tantos que eram. Os rapazes sentiam-se felizes pelo simples fato de tão bela jovem aceitar suas “oferendas” com bebidas e a exclusividade das festas mais caras da cidade. Era feliz, se sentia no auge como nunca. Seus pais já haviam parado de insistir, pois sentiam que já era tarde, pouco podiam frente à tão imposta personalidade.
Marta namorava André, o rapaz do momento que era tão fiel quanto seu amigo Judas. Dispunha de um belo carro esportivo vermelho (clichê?) onde já sentaram as mais belas moças da cidade. Ele gostava muito de dirigir veloz qual gavião sentindo a brisa nas ventas. Marta adorava a adrenalina correr seu corpo esguio. Achava-se com sorte de ter se tornado a “principal” de André. Afinal tinha o olhar que queria de suas amigas – não muito agradáveis por sinal.
Como uma tragédia contada por videntes, esta estava pronunciada havia tempos. Marta e André brigaram mais uma vez em uma festa por motivos de infelizes colocações em horas não propícias como qualquer briga entre dois amantes. O furor nos olhos de André era visível. Marta pediu que André a deixasse em casa. André a obedece sem rodeios, pois já havia ligado para seus amigos que iriam se encontrar em uma boate de luz vermelha qualquer. Marta já no carro, já desconfiada do enredo que se armava, inicia verdadeiros golpes verbais ao ouvido de um desvairado bêbado. Não esperávamos outra reação senão a ira que veio em forma de velocidade. André com sua face rubra e olhos fixos, fazia curvas perigosas de ouvir o cantar dos pneus. Fazia manobras perigosas projetando seu corpo para fora do carro soltando gritos ao vento. Era tudo negro, nebuloso... Marta estava então apavorada. Já vira situações de iminente perigo antes, mas nada comparado aquilo.
Em certa curva, em certa estrada, havia obras na pista e o asfalto havia sido retirado. Foi ali que ocorrera o derrapar do carro em alta velocidade. Marta fora lançada para fora do veículo e André, preso ao carro já inconsciente, caiu afundando aos poucos no rio.
Marta acordou imóvel em uma maca já no hospital. Mirava as luzes brancas e turvas sem saber o que havia acontecido. Tinha somente conhecimento de suas sensações. Sentia muita dor, mas não sentia suas pernas. Era o inicio do fim de sua antiga vida.
No outro dia, já lúcida e ciente de sua situação, de sua paraplegia, passou por exames que confirmaram o já esperado. Fratura de vértebras comprimindo sua medula em várias partes, seccionando as vias que levavam estímulo a suas delicadas pernas. Marta não andaria mais, nunca mais.
Ficou sabendo logo após que nunca mais beijaria seu namorado. André falecera afogado no rio. Os pais de Marta ficaram estarrecidos em choque junto aos pais de André. Desenhou-se uma tragédia que marcaria as duas famílias para sempre.
Marta não conseguiu ir ao velório de seu amado, chorou horas em silêncio ora por Andre ora por sua nova condição. Era bonita mesmo atrás das escaras deixadas pelo acidente. Mas agora se via feia, imprestável... Queria morrer...
Soube dias após, por palavras que de longe me chegaram aos ouvidos, que Marta passara por novas cirurgias na coluna. Conseguiram descomprimir em parte sua medula e que até recuperou um pouco da força em suas pernas, mas caminhar não lhe foi ainda assim possível.
Veio o tempo, os dias se passaram, a tragédia foi se escondendo nos confins de minhas lembranças tristes, se apagando no dia a dia. Conhecia-os por longe, não tinha nenhuma relação fraterna com aquelas famílias, somente guardava um carinho por aquela moça tão jovem e bonita.
Certa monta, numa certa praia num certo verão, sentado ao sol frente ao mar, vejo Marta. Bonita como nunca. Era o tempo que a fizera, como um bom vinho, possuir uma beleza mais consistente. Sua cútis branca era ofuscada pelos seus cabelos loiros compridos que só ressaltavam seus olhos azuis, dois vitrais que transpareciam a beleza de sua alma transformada.
Ali estava ela, de cadeira de rodas, ao lado de sua irmã, na beira da areia mirando o mar. Seus olhos resplandeciam a emoção. Era a primeira vez que se dispusera a ver o oceano após dois anos de árduas sessões de fisioterapia. O seu sorriso lembrava uma menina ao ganhar um ursinho de seu pai. Mas já não era mais a menina de antes. Seus olhos agora eram marcados de luta e mágoas, eram bonitos e profundos, não mais de uma menina qualquer.
Aquele era um momento mágico, as pessoas fitavam Marta. Sua irmã ficara primeiramente um pouco constrangida, mas para Marta aquilo não importava. Seu sorriso ia de orelha a orelha, ria com os olhos, ria com a alma. Ela finalmente estava de fronte com seu velho amigo, o mar que se punha de um azul turquesa clarificado pelo seu irmão sol. Tinha ali na praia grandes lembranças de um tempo alegre, de bronzeados, de paqueras, de brincadeiras com os amigos...
Ah o sol... iluminando seus cabelos longos, lisos, loiros, lindos! Se pedissem para descrever a felicidade, descreveria não um exemplo de vida qualquer de uma personalidade bem sucedida qualquer. Descreveria sim aquele momento, aquele olhar, aquele sorriso. Uma fração de tempo imortalizada na lembrança do universo. Um ser belo, esguio em sua cadeira mirando o horizonte, sem se importar com os olhos curiosos dos que a entornavam. Fez-se bela a conquista, a conquista de um recomeçar... Nunca mais veríamos àquela felicidade, daquele momento, naqueles olhos. Um momento que se perderia no espaço e no tempo, só não se perderia de nossas lembranças...
Marta recebeu ajuda, sentou-se na areia morna que se esparramava macia por entre seus dedos. Um matar da saudade... Pediu para que a levassem para perto das ondas pequenas que quebravam em estalidos suaves de espuma. Sentou ali e fitou mais uma vez o oceano imenso. Sentiu-se acolhida... As ondas batiam em suas pernas inertes. Mesmo assim a sua face se mostrava contente e erguida ao sol poente. O mar agora era mais calmo, se misturava ao laranja cada vez mais plúmbeo e sereno. Lembrou seus duros anos após o acidente. Uma lágrima se misturou ao oceano. Olhou para trás como que recordando sua nova vida, olhou mais uma vez o horizonte, inspirou um sopro de novo ânimo e molhou seus cabelos no mar com os olhos fechados e tranqüilos, finalmente em paz...
Assim se fez aquele momento...  A vida por fim, enquanto vida, se renova...

(como uma onda do mar!!)


Fernando Wolf

sábado, 28 de maio de 2011



Quem dera um dia, só mais um dia, ainda sentir a alegria
De jogar mentiras ao vento e gargalhar por sobre o tempo
Fazer sentir a fantasia de uma felicidade desmedida
Sem pressa, o fazer do amor nosso belo defeito
Em um universo reinventado, dançando melodias do peito

Foi ali, num desdobrar do tempo, como que sem aviso, que o mundo sucumbiu às intempéries da ironia e já de fala fria, o amor se esvaiu em lágrimas. Por fim se fez nostálgico mais uma vez...

Há um pouquinho de verso no meu coração
Há um pouquinho de prosa pedindo perdão
Que faça deste amor uma vez enrustido
Que se lave, aflore e ganhe motivos
De nunca, mas nunca chorar demais e em vão

Fernando Wolf

segunda-feira, 23 de maio de 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Obrigado a todos os leitores (anônimos, parentes, amigos...) que ajudam a tocar este Blog adiante! Hoje ultrapassamos os 1000 acessos. Mui grato!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Discorrer sobre a morte



Meu pai, após ter lido uma coluna do Paulo Sant`Ana (escritor gaúcho) sobre a arte de esperar, chamou a atenção, em roda de amigos, sobre aquele assunto. Era um churrasco composto em sua maioria por pessoas com mais de 50 anos, meus avós que se aproximam dos 80 anos e eu com meus 25. O clima era agradável, típico de um domingo em família. Tinha cheiro de infância. Meu pai comentava as palavras de Sant`Ana. Falava que esperamos por tudo. Esperamos a fila do banco, o pagar da hipoteca da casa, a promoção do emprego, a vinda dos filhos, mas não esperamos por uma coisa, a velhice. Ela te surpreende no momento em que as primeiras dores vêm e insistem em ficar, a dificuldade do locomover-se lhe aflige ao sair de um carro, as doenças já se fazem vizinhas próximas, etc.
Bem e se não pensamos na velhice quiçá na morte. Só pensamos realmente em “pendurar as chuteiras” na medida em que estamos mais próximos a esse rito de passagem, quando estamos já envelhecendo. Também pudera, é a ordem natural das coisas (!) – pensava eu. No entanto, talvez um dia, não ache mais tão natural, pois ali estará a dona morte circundando meu quintal. Talvez um dia, com as faces enrugadas, olhe aquela capa preta e diga: “Natural é o cacete! Se mande desta casa e não me perturbe mais”. Ainda estou na tranqüilidade da juventude, ainda não me é conhecida essa sensação de que tanto falam, muito longe para julgar, mesmo que ao acaso por vezes, ela venha me espiar de perto, num dirigir embriagado, num mergulhar despreparado, ou mesmo num andar distraído...
Uma das senhoras componentes da roda foi enfática: “Vivemos para aprender a morrer. Havia um conhecido vivente de uma região rural da região, que sempre se preparou mentalmente para a morte. – imagino que nem tão “sempre” assim – Quando num belo dia de sol, com toda a família reunida, após terem matado um porco e já guardado a carne, o velho senhor se pronunciou aos filhos dizendo que iria descansar. Foi dormir e faleceu naquele dia como havia dito que gostaria de morrer.” Pensei com certa aflição: “que triste perspectiva desta vida. Dedicar os dias a refletir como morrer quando esta  passagem só se dá uma vez e a vida se dá todos os dias”.
Não bastava, outrem complementou: “A cada dia, morremos um dia.” Pensei “a velha história do copo meio cheio e meio vazio”.
Minhas convicções naqueles dias eram de que deveríamos enxergar a vida através de suas melhores perspectivas. Se a vida nos é dada, qual melhor forma de recebê-la senão vivendo-a e não “morrendo-a”. Ora bolas, fui dormir.
Mas não conseguia fechar os olhos naquela noite. A morte foi já foi tão evitada por outras vezes e agora não conseguia parar de pensá-la. Afinal qual era o problema de pensar numa outra perspectiva? O pensar na morte não me mataria, por ora... não necessariamente se tornaria algo pétreo.
Veja você, caro leitor fadigado com tantos causos, se a morte não parece mais amena da forma que segue. Proponha-se o seguinte: viveríamos da mesma forma se enxergássemos a vida com os olhos de quem enxerga a morte de perto?
Pensemos mais profundamente sobre esta situação hipotética. Imaginemo-nos em nosso leito de morte ainda com nossas faculdades mentais intactas. O que neste momento estaríamos pensando sobre nossas vidas?
Estaríamos pensando em uns mil réis a mais ou a menos na conta bancária? Ou nos beijos a mais ou a menos que demos no nosso bem amado? Pensaríamos no tipo de carro que está garagem? Ou nas lembranças de nossos filhos jogando pingue-pongue ali mesmo? Pensaríamos nas vinganças as nossas desavenças? Ou no cativar dos sorrisos tão prontos de nossos amores?  Gostaríamos de ter brindado a morte de inimigos a exemplo de Afegãos e Americanos?  Ou ter celebrado gols de placa do Brasil contra a Argentina? Amor ou ódio? Lembranças ou bens?

É aí que aquela frase “morremos a cada dia” passa a fazer mais sentido, pois se morremos a cada dia, que possamos dar o melhor sentido a nossas vidas, a cada dia. Que vocês possam achar assim, cada um do seu jeito, um modo mais sábio de se viver. Segue em versos então, o meu repensar da morte, um repensar da  vida:

Penso em mim morrendo
Sentindo o sol bater morno em meu rosto
Cheirando o aroma de terra molhada
Lavando as mãos em água limpa da fonte
Ouvindo gritos de brincadeiras não guardadas
Afagado por olhos iluminados de amor
Tudo muito claro e brilhante
A vida andante
Que vem a minha morte alegrar...



Fernando Wolf

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Amor pequeno





Gente que vai, gente que pouco viu
Desfalecem na angina de nossas almas
Que choram por almas pequeninas
Levadas muito cedo, cedo de mais...

Tinham nas mãos o pulsar da vida
Eram futuros pintores geniais de suas histórias
Futuros interrompidos, risadas subtraídas
Amores não vividos... Vento leva frágil...

O sangue machuca, ferve em lágrimas
Dói mesmo em olhos muito machucados
O horror não nos amortizou ainda
Um mero consolo ao inconsolável

Eram tão amadas, tão vivas, tão belas!
Interromperam o amor sem aviso
E dos que ficaram no vendaval
Ainda ali o amor com os de mesma dor

Algo em mim diz que foi ato sem amor
Foi brisa fria sem sentimento
Um coração que não batia direito
Ainda não vejo raiva, só dor...

Indigerível senão fosse o tempo
Talvez um sempre, um eterno entalar na goela
As chagas ainda estão abertas...
O vento ora sopra ora queima a pele

Meu Deus... Eram tão pequeninas de vida...
Flutuam agora em brisas macias
E lembranças de amor sopram seus rostos
Vão com Deus pequeninos amados

Dedicado às vítimas da escola do Realengo
Fernando Wolf

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Quem me dera escrever-te cartas de agosto
A sensatez já pousaria por sobre as letras
E meu coração já não teria mais tinta
Não haveria borrões nem letras tremidas
As palavras seriam suaves e redondas


Quem dera escrever-te palavras de agosto
O sabor já seria mais doce e palatável
A madeira já estaria seca para queimar
A passarada migrante já estaria na Patagônia
E os jardins seriam de grama verde sem flores

O tempo seria cinza e ameno
Os campos esperariam nova safra de trigo
A terra guarneceria seus minerais
A água esperaria o molhar de outras plantas
E o amor presente se faria inerte...

Janeiro, minha cara, é ainda temporal
Tudo é tão quente que dói na pele
A água efervescente jorra nos vales
As lástimas perduram nas nascentes
E as laranjas caem podres de desilusão

Mas minha cara! Agosto ainda virá!
Repousaremos cada um sob seu campo
E beberemos vinhos de carvalho velho
Mirando as estrelas que por outras noites
Alumiaram as nossas mais belas lembranças

Por agora, só me resta esperar o mês de agosto...


Fernando Wolf

Todas as formas ainda ressurgem em meu peito
O amor que a seu despeito vem falar comigo
Chama o coração para vir te ver e faz crer
Que um dia você vai ligar dizendo, ainda te amo

Miro os prédios que ao sol se mostram insólitos
Que sentido tem? Sem meu amor quase imploro
Se de saudades vou ao parque caminhar
Ainda espero sem pressa meu coração parar...


(que lógica tem?)

Sempre sozinho porque quero ser mais algum
Um ser desalmado que já não mais acuado
Se faz triste pelas ruas a sonhar
O dia em que poderá novamente, tua boca beijar

Fernando Wolf  - ai ventrículo!

sábado, 2 de abril de 2011

Era um sonho

Estávamos em uma roda entre grandes amigos e colegas de faculdade. Grandes camaradas que me marcaram com certeza, destes que vem para possuir as mais vivazes lembranças de nossas mentes. Estavam todos em uma sala num ambiente muito animado, uma sala simples e pequena. Era uma reunião de reencontro ou despedida não sei bem, mas sentia os dois. Ansiava pelas surpresas que meu mestre guardara. Não era só meu mestre, era de todos. O estimávamos como um grande amigo. Ele iniciou fazendo pequenas homenagens a fatos ocorridos durante a nossa convivência. Mostrava fotos de meu amigo e suas extravagâncias e todos riam. Assim, meu mestre se fazia muito amoroso sempre fazendo questão que cada pessoa ali soubesse o quanto significava na sua vida e o quanto ele tinha amor por cada um.
Mas algo não me parecia certo ali. Meu nome não vinha, e tinha a angústia de querer ganhar aquele amor, ao mesmo tempo sentindo que não havia plantado tanto amor quanto as outras pessoas. Estava irritado. Até que chegou a minha vez de falar. Nisso me interrompe um ser. Era uma mulher numa cama, era quem eu amava. Não tinha face conhecida, mas sentia que a amava. Ela estava pálida, caquética algo como um paciente terminal. Ela estava ao lado de outros que tinham amor por ela e eles como eu, sabiam que ela iria morrer em breve. Eu, mesmo assim, diante de todos, consumido pelo ódio de não ter recebido aquele amor desejado, a xinguei. Era como uma vingança por todas as mágoas que ficaram entre nós. Falava mal daquele ser frágil e pálido consumido pela sua doença. Ela não chorou, ela somente se absteve. Os que estavam em volta a confortaram.
Foi então que meu mestre deu um presente de algum significado e a abraçou, falou quanto ela era especial e significava a todos. Houve uma mudança nos meus sentimentos. Eu vi a mim mesmo e não gostei. Eu vi quão tolo é o que guarda mágoas e se priva de amar. Nisto, despreocupo-me se ganharia uma homenagem ou não, solicito permissão dos que estavam envolta dela e me aproximo. Ela me olhou com ternura e se levantou com dificuldade. Eu peguei em sua mão, nos abraçamos e nos despedimos em lágrimas.
Acordei... Meu peito abrigava algo ainda estranho. Pensei o quanto aquilo estava carregado de significado. Duas grandes lições logo me vieram...
O maior presente que podemos ter é a capacidade de amar aos outros e poder demonstrar isso. Só chegamos a este ponto amando a nós mesmos. Do contrário muito pouco temos a dar e acabamos por permanecer num estado egoísta. Era meu mestre me ensinando, me dando um grande presente. Se buscava um sentido em minha vida, um propósito, este me pareceu o mais autêntico... A paz se restabeleceu em meu peito.
A segunda lição foi de que amores nascem e morrem em nós. Alguns podemos carregar juntos sempre até a nossa partida deste mundo. Senti que nossos amores podem vir junto a mágoas sejam elas coerentes ou não. Infelizes seremos se deixarmos o ódio dominar as nossas mais doces lembranças. Triste daquele que não consegue ver a efemeridade da vida e perdoar a si e a quem amou pelas mágoas deixadas. O amor e somente o amor pode trazer um significado digno a nossa passagem e aos mais diferentes tipos de vida que escolhermos neste mundo. Se não fizermos do amor nosso presente, quando olharmos para trás nos restará muito pouco. Dê amor e ganhe vida.
Hoje eu tive um sonho que mudou a minha vida de alguma forma.