Nem mesmo do leite que jorram
das tetas
O ventre que carregas
Onde guardas o amor
Da rosa que te pariu
Agora esqueças,
És um homem deste mundo
E aqui teu falo é teu punhal
Se não cortares as gargantas
É tua cabeça que será exposta
Nas praças públicas de teus semelhantes
Que, como a ti...
Vivem a sonhar calados com o
dia que voltarão ao ventre
Ao aconchego de todo homem só
Eles e tu, doutrinados ao
“cala-te!”
Num desconsolo da mais pura
falta de seus todos,
Choram as lágrimas solitárias
De não poderem ser
Os ventres que ali lhe habitam
Em meio as suas entranhas
irrequietas
O som vinha como trovões
Deflagrados de uma energia
estrondosa
Impondo-se aos ouvidos a
dentro:
“Enquanto somos sós
Soldados sem exército, sem
companheiros
Num fronte de valas tristes
Com os pés frios e
paralíticos
Que ali...
No reduto de toda nostalgia duma
liberdade pueril
Ninguém mais ouse mostrar o
seu ventre!”
Bradavam os de
peito inflado
De olhos marejados de toda dor
Eis o medo que o abocanha
O medo da cegueira
Que paralisa as pálpebras
Torna tudo escuro e denso
Sem cinema, sem artista
Nem luz
Ah inglórios soldados sem
causa!
Em franco aborto vital
de suas almas
Ajoelham-se perante sua
Invídia e clamam:
“Que morram todos os heróis!
Destemidos vulneráveis
De nudez clara como a água de
um pássaro
Que matam o homem, com olhos
serenos
Dia após miserável dia,
Plantam um humano dentro de
si
A todos estes, só restam os nossos
punhos
Que socam o vento vão
Um punhal sujo do sangue
Que recrudescem as chagas
Daquela mesma criança
Do parque, da gangorra
Pipa, boneca, pisam a grama
E hoje pisam o chão"
Eram quaisquer uns, tolos
Tomavam conta dos bares
Dos campos de futebol, das
barbearias
Junto ao cair de seus pêlos,
A raiva de seus olhos frente
ao espelho
Até que o último dos homens
Tornou-se a si
E sangrou seu ventre:
“Que morram todos...
Que morramos juntos!
Os homens e os punhos cerrados
Para que só reste
No fim de cada ocaso
O ventre que acolheu um
dia
E a mão que libertou
O humano preso no estômago
Deixemos este ser todo
Viver a plena arte de si!
Fernando Wolf
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