O filme francês "Les Petits mouchoirs" - lançado com o título "Até a eternidade" no Brasil - é dirigido por Guillaume Canet e tem ao todo duração de mais de duas horas. No entanto, o enredo trágico cômico é desenhado de forma inteligente e emocionante, sendo inevitável prender o interesse na vida de cada personagem. Marion Cotillard (minha preferida) está como sempre bela e esbanjando talento.
A trama inicia com uma tragédia em meio a um grupo de amigos, mas vai aos poucos se tornando mais suave, para enfim, finalizar com maestria. As lágrimas são inevitáveis. O filme força-nos a refletir sobre o que devemos valorizar nas relações com os amigos, amores e com a vida.
Quem já não quis mudar-se para uma ilha, longe de tudo e
todos os que incitam ao caos. Bem verdade que cada um sonha com a sua ilha, a sua
própria, do seu jeito. Cada um tem um paraíso guardado dentro de si. Quem dera
eu então, viver em uma ilha, que não seria necessariamente cercada de mar, mas por
campos dourados, laminados por ventos vindos do Sul.
O ranger do relógio traria o dia, uma vez, e a noite outra.
Seria assim o tempo contado, mas também fracionado, pelas vezes do leite ordenhado
dos ventres das vacas em seus cercados. Da varanda larga colocar-me-ia numa rede num fim
de tarde para rir da meninada a caçar ovos por entre poleiros, espantando com
medo, as galinhas chocadeiras.
Lá, o dia-a-dia jamais cansaria. A música suave de estradas
passadas caminharia por entre os corredores, chamando todos à sala, frente à
lareira, para ali ficar no calor do fogo, ouvindo os estalos da lenha.
Esta ilha de modo algum receberia sinal de mundo outro. Lá o
único jornal, seria o da vizinha, que daria bom dia com notícias do povoado de
lá. Assassinatos, quadrilhas e corrupção não passariam mais na televisão.
Cortaríamos assim a escola de um ladrão.
A tranquilidade se daria por gestos simplórios. Mostraria a
paz por entre aqueles, que já tiraram do tempo, demais amarguras, para se
importar com as frescuras, dos dias a mais.
E para quem ali quisesse viver, teria de aprender a ouvir os
canarinhos com atenção, pois assim, dum continente de poucos ouvidos, conseguiria
se abrir mão. Nesta doce epifania, se poderia a paz sentir. Seria ali num
repousar das costas no gramado, que se escutaria, com o sol recobrindo a face, o
que a vida realmente tem a dizer. Aprenderíamos assim um novo fazer do pão, de
nosso próprio trigo plantado, sem mais prestar atenção, às receitas criadas no
caos do mundo de lá.
Ilha assim, levo em meu coração. Coloco lá quem eu quero,
coleciono as pessoas que amo, envoltas nos sentimentos mais nobres que já fui
capaz de sentir. E por vezes, permito-me para lá fugir...
O mesmo violinista, Joshua Bell, acima em uma pintura sem moldura e abaixo em uma com. Somos ou não grandes apreciadores de molduras? Quantas obras de arte de nosso dia-a-dia deixamos passar por não concebê-las como arte. Mesmo o cotidiano pode ser arte quando percebido como tal. Basta parar e contemplar o que toca ao peito.
Um jovem tinha agora
a morte como parte de seu cotidiano. Era sua nova profissão como “cerimonialista
fúnebre”. Tinha de enfrentá-la face a face. No entanto, isto lhe trazia
conflitos internos e externos – tinha o descrédito da sociedade e de sua
família que achava aquilo um trabalho indigno. E esta bela cena arranja-se em
cima disto:
Em uma ponte baixa, no interior do Japão, o jovem observava
pensativo. Eram salmões que nadavam corredeira acima por entre as pedras do
riacho. Um ancião aproximou-se e perguntou se ele estava admirando os peixes.
Quando, por entre os que remavam bravamente aos seus destinos, boiavam alguns
desfalecidos seguindo o fluxo do riacho. Era natural ao ciclo do salmão. O
jovem, em sua perplexidade reflexiva, indagou ao velho “qual o sentido de tanto
esforço se a morte era o destino daqueles peixes?”
O ancião já dando as costas ao jovem, voltando calmamente ao
seu caminho, respondeu: “Talvez eles queiram voltar para onde nasceram...”
Uma cena simples e muito rica em contemplação. Pois temos
muito de salmões... não? De algum lugar viemos e a algum lugar iremos – ou
voltaremos. Existe conexão entre a origem e o fim? Talvez seja esta angústia
existencial que motive a procura de nossa origem, de saber a nossa história, de
saber quem foram nossos antepassados, o que fizeram, quais os seus feitos, o
que nos trouxe até aqui. Quanto mais nos aproximamos da velhice – da morte
porque não? – maior a tendência desta busca. Eis que entender o passado, poderia
nos dar fundamentos de imaginar um futuro, de poder palpar algo teoricamente
impalpável. Afinal a busca ao passado, poderia se constituir de uma busca por
um conforto existencial a nos conectar com a vida e com o mundo.
A cena descrita acima vem do filme ganhador do Oscar de
melhor filme estrangeiro de 2009 “A Partida” – Okuribito/Departures. Foi
gravado em 2008, dirigido por Yojiro Takita e ambientou-se no Japão. Tem várias
cenas estranhas, carregado de significações. Um bom filme.
É Woody Allen, é bom, com uma
mistura de elenco interessante. Traz alguns enredos, distintos uns dos outros, passados na belíssima Roma. Mesmo sendo fragmentadas as estórias, não se consegue desprender a atenção ou perder a noção de continuidade. O humor é delicioso, habilidoso,
com deixas que só este diretor e suas neuroses conseguiria tramar. Deu para matar a saudade de Roberto Benigni também que está engraçadíssimo como sempre. Penélope está
fantástica, num vestido vermelho de deixar qualquer um de joelhos. Faz da
sedução uma brincadeira que, apesar de hábil, para ela parece ser muito natural. Um
filme excelente para quem vive num caos, pois pelo menos para mim, o mundo ficou para trás por alguns minutos. Só mesmo Woody Allen. Assistam!
A saudade é uma tristeza que vem do peito, vem do fundo, lá
dos fundos dum quintal... vem com cheiro de churrasco de domingo onde os primos
brincavam felizes pelo capinzal. A saudade é uma devoção entre as almas, que
vem ao corpo provar que, sem o amor de acalento, passamos por um frio de doer.
Frio tão gélido que faz o peito tremer sem igual. Basta então soprar por sobre
o vidro molhado de garoa para desenhar as nuvens que costumavam encobrir os
sóis de outros verões. Eram nestes dias que vinham as suaves brisas por sobre
as faces dos que conosco não mais perto estão ou quiçá mesmo, já viajaram para
outro mundão.
As lágrimas, quando de saudades, sequer avisam. São safadas,
desbocadas, imprevisíveis! Basta uma ligação e, sem mão, elas se fazem
enfileirar ladeira a baixo pelas bochechas despencando uma a uma por sobre o
telefone. Por fim, esparramam-se por sobre o capim que costumávamos pisar, lá,
lembra, em meio àquele quintal.
Ah e os cheiros! Grandes âncoras que atracam o peito nas
mais profundas águas de nossas lembranças. Fazem-nos mergulhar em meio aos
pastéis caseiros da vovó fritos em banha ou mesmo em perfumes de amores
deixados lá nos fundos dum cafundó.
Quem sente saudade sabe bem o que é lonjura. Palavra besta
que atina os corações só por desejarem aquela “perteza” gostosa das rodas de
conversa na varanda. Ou aquele abraço gostoso como prova do enlaço das mais
virtuosas emoções. Mas vem o longe que costuma envolver o coração com tamanha
força que faz paralisar qualquer esperança de um reencontro bom. Sorte a Deus
Pai que a isto não se deve mais de uns minutos. Logo aquele sofrido coração
volta a bater no compasso do dia-a-dia, da nova vida que será sentida, da mesma
forma, nos dias que se virão. "Êh trem bão..."
Todos os dias, dias após dias, o inevitável frio soprava os
corredores. Eram doentes e doentes invariavelmente eram carentes. Debilitados
na fragilidade dos estados de seus corpos e espíritos. Às almas frágeis, fazia-se pesar o não poder levar do calor que costumavam ter por sobre
suas faces em dias de sol.
Entretanto, havia algo em meio aos corredores e quartos que
guardava uma preciosidade, uma flor, que trazia seu próprio sol. Ela era uma menina
de pele alva da cor de noites de lua cheia, de cabelos vermelhos dourados que
pareciam da fênix tirados. Estava agora em seu estado mais febril, vinda de
duras batalhas com sua própria sorte. Dias e noites lutando por não apagar a
chama que mantinha sua energia vital. A precariedade, a total entrega e a
carência de intimidade já fazia parte de seu cotidiano. Era doloroso vê-la. Uma
menina tão moça. Um martírio tão grande.
Todo o ar que tragava, já havia dias que por sua boca não
passava. Era por meio de cânulas e aparelhos que respirava. Um incansável ir e
vir artificial. O sono não era natural, queria dormir, mas seus olhos não
fechavam quando desejava, mas sim quando as máquinas e medicamentos ditavam. O arbítrio
já não era mais seu. Seu corpo já estava inerte a frequentes invasões.
Cateteres, exames, tubos, desconhecidos de branco falando a sua volta hora
sobre sua pessoa, hora sobre superficialidades.
A medicina moderna a fizera sobreviver, mas ainda não
conseguira fazê-la viver, até aquele dia...
Já não mais dependia de aparelhos, mas estava fraca e havia
ainda uma cânula que desviava o ar diretamente para seus pulmões. Não lhe era possível
falar. Era-lhe cabível somente expressar-se com os olhos. Seus olhos azuis
queriam falar, carregavam uma esperança sorvida por tristeza. Havia dor. Veio
então a notícia. Seria possível colocar uma cânula em sua traqueia que a
permitiria falar e que lhe daria mais conforto. O médico prontamente realizou o
procedimento de troca. Sua mãe, que a acompanhava incondicionalmente desde
sempre, sofria às lagrimas do lado de fora e entoava baixinho: Filha, sua mãe
esta aqui! Sua mãe esta aqui, filhinha!
A jovem menina mais uma vez mostrava seus olhos de angústia.
Era desconfortável, quase não tinha forças para tossir. Foi quando, que uma vez
a nova cânula colocada, com sua mãe ao lado, aquela menina mostrou seus olhos
em lágrimas e estendeu seus braços trêmulos. Sua mãe prontamente perguntou
angustiada:
“Filhinha, você esta com dor?”
Dissemos que ela poderia agora falar, afinal já havia tanto
tempo que já se desacostumara. Eis que ela reúne todas suas forças e, em um
sopro de ternura, responde:
“Mamãe, eu te amo!”
Sua mãe, emocionada, passou a mão em seus cabelos e
respondeu: “A mamãe também te ama, filha.”
O silêncio agora se fazia de fala, trazia o som da
perplexidade dos que estavam a sua volta.
Havia em toda aquela fragilidade uma força que permeava todo
o sofrimento. A força de um amor incondicional. Um amor tão doce que foi capaz
de tirar, num instante, toda a amargura daquele sofrer. Algo que palavras
realmente não são capazes de descrever.
Foi naquele dia, que pude sentir o perfume de uma flor, que
se fez florir em meio a um mundo de cimento tão duro e arbitrário. Foi naquele
dia que minhas lágrimas homenagearam o perfume mais doce deste mundo sem fim.
Foi o amor, ele sim, que iluminou a flor mais nobre daquele jardim.