Quando entramos num estado de tristeza – de qualquer tipo – temos
aquele sentimento de estar em um perpétuo e infindável banzo. Parece que nunca vai
acabar – nunca mais, nunca!!!
Já a felicidade é tão findável quanto bolhas de sabão. Elas
são bonitas, lembram as brincadeiras de infância, mas logo estouram e lá junto
vai-se todo o encanto.
Aí que a diferença faz-se proposital. Do lado cinza da tristeza
o sentimento de um pesar perene – que de eterno só o seu mudar
de forma – dá-se justamente como meio de levarmos realmente a sério nossos sentimentos. Com
isso passamos a ouvir com maior atenção a nossa essência falar. “Isso vai
longe, é bom ouvir o que vem lá do peito!” Tirando os perversos de mente, ganhamos
com isso a bênção de um pouco mais de sabedoria. Descobrimos que os voltares aos mesmos caminhos
espinhosos, trarão novamente "eternos" sangrares – e aqui ninguém quer ficar
anêmico! Ou pelo menos um dia cansamos desta palidez...
A nossa amiga felicidade vem a conta-gotas, pois, do contrário, não
valorizaríamos os presentes que a vida nos dá. Seria uma mesmice retroativa de
endorfinas. Ninguém sentiria da forma
intensa a felicidade que nos encontra várias vezes ao dia – quando a buscamos... claro!
Lembra aquela do Vinicius – de Moraes, Who else? – “A
Felicidade”:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade é uma coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor
O mundo está ficando velho. Teremos que aprender mais e mais a conviver com os velhos, ou melhor, teremos que ensinar mais e mais esta convivência. Afinal seremos nós os velhos do futuro. Atualmente, temos 15 milhões de idosos no Brasil (8,6% da população) com a perspectiva de chegarmos ao dobro de idosos em 20 anos (13% da população). Há a tendência de uma melhora na qualidade de vida do idoso. Teremos um maior número de idosos alfabetizados, com maior poder econômico e se concentrando mais no meio urbano (onde há maiores condições de cuidados). Assim outra realidade está se moldando, aí a necessidade de um olhar mais cuidadoso com nossos idosos...
Assisti há muito tempo, uma reportagem onde um ator jovem se vestia de velho corcunda e andava pelas ruas. Foi uma surpresa quando se viu certa brutalidade com o “idoso” enquanto todo mundo (espectador) esperava calma e compreensão. Não sei se aquilo era medo projetado ou falta de educação mesmo (mais provável). O fato é que poucos param para olhar alguém de mais idade quanto as suas necessidades.
Observo os velhos. O seu andar lento e dificultoso. Por vezes, o entrave é doloroso e visível em suas faces enrugadas. Ver o velho angustia ao novo. Ali se projeta o futuro do novo. Ninguém quer perder sua vitalidade, seu tesão, sua pele macia, seus joelhos capazes e articulados. Muito menos, portanto, antever a tudo isso. Acho que por tal fato, tantos os ignoram. Quanto mais vêem aos velhos, mais se vêem próximos, maior a angústia, mais fácil a negação. Mas gosto de observá-los ainda assim. É quase um exercício – de empatia – olhar, deixar de lado seus medos, e observá-los.
Gosto de ver seus olhos profundos, tristes, distantes, atentos, curiosos, saudosos... Há muita história ali. Até porque a natureza tende a desprivilegiá-los de suas memórias recentes – talvez para esquecer mais fácil suas tão atuais moléstias. No entanto não os priva tão facilmente de suas doces recordações. Falam – e como gostam! – dos grandes feitos, das guerras, das dificuldades, como tudo era mais difícil e de como superavam tanta adversidade. São boas as suas histórias. Ainda mais aquelas felizes, das aventuras de seus filhos – hoje já marmanjos – das suas empreitadas pelo mundo afora, dos “causos” ocorridos em suas comunidades que chocaram na época. Tudo cheio de emoção que faz os olhos até hoje se curvarem às lágrimas. Quantas glórias naqueles seres franzinos já se fizeram presentes, quantos amores já foram vividos, quantas desilusões também, quantos perdões já se deram para permitir o continuar da vida...
Fica um propor da empatia, pois além de maior atenção e compaixão para quem os anos deram o seu merecimento, a empatia é um exercício de preparação aos nossos inevitáveis futuros. Talvez o encarar da velhice como algo mais natural e presente, nos tire um pouco está atual e epidêmica corrida – estética e “mental” – aos padrões jovens de ser. A maturidade nos dá as benesses que só o tempo é capaz de trazer, porém é de cada um aceitá-las ou não com maior naturalidade.
Está aí a importância da formação dos mitos. Grandes eventos na história foram gerados pela formação de diferentes mitos. Mostra-se neste vídeo que os genocídios, a escravidão e outros eventos trágicos foram justamente forjados pelos mitos de cada época. Fica a dica para parar e pensar: quais são os seus? Quais as origens dos seus mitos? Quem sabe aí uma fonte de "iluminação" para evitarmos outras catástrofes...