domingo, 6 de novembro de 2016

Ser plena rosa





Presa em suas próprias pétalas
Ela vertia o néctar de sua tristeza
De um dia ser como cravo neutro
Sem vermelho
Não queria mais vermelho
Não queria mais ser vista de longe e ter perfume
Sonhava ser branca, como a parede
Poder viver desapercebida
E viver em paz

Mas acordou renascida
Em meio à uma fenda entre a rocha
E se viu rosa sem cravos
Seu perfume era intenso
Sua tez era sangue quente
Era rosa, na sua mais sincera natureza
Com espinhos
Que somente quem lhe trouxesse delicadeza
Poderia sentir o afago de sua face

Era rosa
Pois lhe era direito!

O perfume que corria
Por entre os cravos,
Por entre o capim
Ou por entre qualquer coisa
Era correnteza
E não havia quem segurasse
O desabrochar de suas pétalas




FWaMay


domingo, 16 de outubro de 2016

Poema dos teus sorrisos








Quando eriçam os pelos de tua`lma
Teus olhos clarificam-se em alegria
Violinos reverberam em teus ouvidos
As folhas de prantos passados
Que fazem do orvalho de noites tristes,
Caírem sobre tuas retinas


As janelas embaçadas pelo calor de teus sentimentos
Envoltas por campos alvos em geada
Fazem com que cada gotícula melancólica
Se junte uma a outra,
A recair entremeando o vapor que até bem pouco te cegava

Tuas retinas então vibram com a luz que adentra
Sobre o chão que recobrias com teus pés
E faz tua boca contemplar a vida num regozijar alegre que atravessa teus dentes e ganha o mundo afora

Eis o mais belos de teus solstícios
Quando o trigo atinge seu tamanho máximo
Acariciados pelos ventos que sopras de teus lábios
Douram uma áurea de manhãs serenas
Que te envolve e acalenta
A guardar a esperança dos remansos
Das mais saudosas alegrias
Lembradas pela magia
Dos teus sorrisos gentis
Que desabotoas docemente

Por entre teus lábios e véus



Fernando Wolf

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Olhar além



Uma boa perspectiva que pode ser usada tanto para o micro como para o macro. Se só prestarmos atenção ao que há de violento em alguém ou a algo, sopramos a palha que se queima, perdemos para o fogo tentando apagá-lo... Se prestarmos atenção ao que há de virtuoso dum ser e seu ambiente, mesmo em meio ao caos, há de florescer o belo. Um bom exercício este olhar mais atento e além. 


FW

segunda-feira, 11 de julho de 2016









Aqueles que conseguem viver,
Devotos de seus amores
Nus, na frialdade da pele que habita a cachoeira
Onde vertem as águas puras por entre os seios de uma ninfa
Que beija os próprios lábios e sente o sabor da sua dor
Sopra a face e faz doce o sangue que corta a sua carne

Aqueles que conseguem ver
Que pisam nas areias escaldantes de um deserto cálido
Sobre a mira de estrelas que carregam o peso de bilhões de outras estrelas
Num universo negro, que explode a razão de ser
E desatina a sombridão sobre milhões de cegos
Que como eu, vivem sob estrelas que não veem

Seletos de imensidão,
aqueles que conseguem viver...

O cheiro,
A maresia de ondas que batem em vão
No abraço das grandes rochas inertes
Dissolvem-se em respingos que deliciam as mãos
Daqueles que gritaram por viver 
E honrosamente suportaram as lágrimas caías na terra agreste, 
Sedenta de qualquer emoção


É ali, na solidão de uma noite silenciosa
Que me deito,
O chão, como um bom amigo
Guarda carinhoso as tristezas dos que lhe pisaram
E como num sonho vão
Seguro qualquer torrão seco que se desfaz em pó por entre os dedos
Dando uma estranha sensação 
Dum inicio de qualquer coisa de meu espírito
Que me faz voltar a esperança
De que um dia, minh`alma inunde esta mesma terra
Das mesmas lágrimas dos que um dia ousaram chorá-las
Pois os seletos que choraram com as estrelas, estes sim, as viram
e viveram.






FW 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

O reinventar-se





Mudar é bom, é penoso e no fim das contas é essencial para que o artista dispa-se dos seus medos e atue com a beleza de sua personalidade à luz de sua essência. Um fenômeno de entrega e de inquietante vulnerabilidade, que deflagra os mais saborosos gostos da vida - o “eu” como um todo, integrado ao todo.
“Sabia que no fundo de todos aqueles pensamentos havia uma potência não explorada, que não se podia expor pelas barreiras do próprio hábito e mais ainda, pelas muralhas destes estigmas que cada um carrega consigo. Estas coisas de um todo inconsciente, uma leitura premeditada de nós, onde metemos nossas mentes em claustros, fóbicos de qualquer coisa que fuja ao premeditável. Somos todos tão humanos...”
É no caminhar sobre os olhos da esperança, que conseguimos enxergar o horizonte sem nos cegar pelo desânimo desta misteriosa finitude.
“Mudávamos de cidade ora e outra, por muitos motivos e principalmente por razões de nosso pai que vivia seu status de peregrinação por novos horizontes, tendo ele despontado mundo a fora, levando junto sua família e seus sonhos. Era ele um jovem homem a procura do que havia de se transformar em seu próprio épico, no que lhe cabia de herói, senão de sua própria existência.”
O homem traz consigo uma semente, que canta no peito potente, a vontade de poder brotar.
“Até então, recolhia-me em pequenos desejos, singulares daquela época. Um adolescente franzino, de pernas inquietas, que vivia de quereres e perdões. Quem sabe um dia, aquela garota me olharia... ou quem sabe mesmo, conseguiria ter uma desenvoltura normal de qualquer garoto e seu grupo tribal, seja qual tribo fosse... e quem sabe talvez, nem que por um breve momento, seria aceito por mim mesmo e tomaria o rumo certo, certo mesmo daquilo que vivi. Era para todos o mesmo e para mim, aquele mesmo, já não fazia mais a sua falta. Mirava os passos a minha frente, os risos vinham me quebrar a espinha, ecoavam por entre as têmporas e reverberavam em minhas pernas, que covardemente recuavam.”
Quando os senhores de nossos pensamentos acostumam-se a obedecer à rotina, logo os ossos do corpo estremecem revoltosos e ordenam aos músculos que se contraiam e às articulações que se desdobrem em movimentos - que se corra sem rumo, mas que se corra!
“Perguntou-me mais uma vez: filho, acho que vamos mudar novamente, é importante, é para longe... o que achas?”
O que levar senão o “adiante”, de pés no chão e com as mãos espalmadas nos sonhos, aos olhos dum coração que dá o sentido e a direção. O movimento pode ser potente, nobre em causas, mas árduo de práxis e cotidianos. No desânimo dos olhos alheios que, cansados de tanta desilusão própria, se insinuam por sobre ombros vizinhos e desdenham qualquer arte de suas bocas, satirizam os pés e as mãos embaraçados de outrem em sua própria coreografia. Assim, mesmo que o belo ressurja dum coração, nada se reconhece daquela novidade e, sociais que somos, parecem-nos por vezes que os subterfúgios, são a língua da nossa submissão como um triste desenho de nossos passos, feito pelos mais diversos lápis, sem sequer um mal feito traço, desenhado com a nossa própria mão.
“Foi a chance que tinha, mudar (!) e já íamos lá. Era tudo novo. Já os medos, os mesmo. Mas a coragem agora já não se calava e brotava das gotas nervosas de minhas mãos. Podia ser um colégio ou uma simples aula de Karatê. Eu soprava os pensamentos por sobre aqueles imensos corredores, fitava todos a aqueles horrores, era a mim o abismo e não conhecia sequer o seu fim. Podia ser o que fosse, escolhi, naquilo tudo que poderia, ser “caminhante”. Dei então um passo adiante, depois outro e outro...”
Há sempre um respirar, que por Deus, se não fosse a bendita constância universal, a mudança, não respiraríamos uma gota de ar sequer. Sufocaríamos em nosso próprio tédio. Ah o que seriam de tantas andanças se não fossem as mudanças a reinventar o viver.
“Enfim, como já era previsto, não virei um herói - se é que existem - não fui sequer o melhor dentre todos, em tudo o que fiz. Simplesmente desfrutei o gosto daquele “a mais” que pude ser de mim.”

Somos as estações que caem como folhas desbotadas de outono, recolhem-se próximos a fogueiras no inverno, revigoram-se na primavera e dançam ao sol do verão. Que possamos viver plenamente cada estação de nós ofertada, mesmo que ninguém perceba o quão doce podem vir um dia a ser os nossos frutos.


FW