sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Meus Olhos






De quem são estes olhos?
Até bem pouco tempo pareciam tão meus
Embebiam-se em tormentas
Secavam ao sol o orvalho dos dias de tristeza
Brilhavam com alegria os domingos de xácara
Um menino com os olhos do coração


Estes olhos não parecem mais meus
Tomo um susto no relance do reflexo
Parecem um vulto, de rugas e cansaço
Talvez um pouco mais seguros de si,
Mas não, a segurança não habita mais ali
Pelo menos não é mais sincera,
Parecem querer esconder algo, um receio
Mas ali também um olhar de aceitação
Aceitam agora a sua densidade, afagam a retidão




Ah mas eles mudam sim, por vezes!
Em relances de sorrisos da alma
A acompanham logo de imediato
Mudam de feições, brindam as doces ilusões
Fazem lembrar que estes olhos são de alguém sim
Num instante esquecem os traços carregados do tempo
Revivem uma criança de olhos redondos
Espantados, mas com a certeza de suas pernas
Deitados na esperança, naquela breve esperança
Ali sim, os olhos meus, no sorriso daquele menino



Fernando Wolf – Um brinde aos 28

terça-feira, 25 de junho de 2013

domingo, 24 de março de 2013

As sessões - filme




Baseado em fatos reais, fez parecer real. Feito com alma, desnuda e pura. Helen Hunt é o exemplo mais belo, uma entrega a seu personagem. Não há nada de excepcional senão a simplicidade de uma história bem contada. Bom divertimento.



FW

terça-feira, 19 de março de 2013

Riacho turvo





Quando o porta-voz dum corpo pede ajuda
As lágrimas que correm pelo rosto
Levam por sobre as pedras a água suja
Removendo as cinzas revoltas da nascente
É possível ver então as pedras lá no fundo
Por onde passou o fim do mundo em temporal
Ao imergir os ouvidos na água pura
Pode-se sentir o barulho de paz do nada
O coração se habitua de novo com seu lugar
A fala fica mansa a enxugar a última herança
Aquela lágrima que ainda andava por lá




Fernando Wolf



Paolo Nutini - These Streets live Paléo Festival 2010 - 04


sexta-feira, 15 de março de 2013

domingo, 10 de março de 2013

Beijo beijo




Longe longe
Perto perto
O que é certo
Mesmo longe
Perto estar

Tempo tempo
Vento vento
Derruba casa
Nossa morada
No peito refaz

Amo amo
Chamo chamo
Porquanto choro
Sem seu rosto
Minha paz

Volte volte
Logo logo
Vem correndo
Com teu gosto
Teu beijar




Fernando Wolf

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dias de tormenta e paz






Em tudo há algo que se constrói e algo que se destrói. A natureza ganha vida nestes dois estados. Se fosse pétrea, não seria natureza. Nosso coração guarda os mesmos princípios. Por vezes é necessário destruir algo antes construído para que a vida que guardamos no peito se mantenha e se reconstrua das cinzas deixadas.
Tal princípio é válido para todos os aspectos de nossa vida. No amor, vivemos processos de expansão e retração das virtudes e sombras carregadas. Isto tanto pode ocorrer com separações onde não há mais energia capaz de sustentar os laços construídos, quanto dentro de uma mesma relação.
No trabalho, nas conquistas, vivemos períodos de auge e excitação, que tão breves são, quanto os de frustração. Afinal é a dinâmica da vida ocorrendo, em perene permuta, oscilando em suaves e drásticas mudanças.
É necessário o conhecimento da naturalidade que existe no processo da mudança, do construir e destruir que a vida carrega. É necessário entender que também carregamos a estes dois estados. Mimetizamos a vida, a natureza, o que está a nossa volta. A partir deste conhecimento, poderemos sim talvez identificar as estações, e antever a tormentas ou a primaveras plácidas e quentes. Está aí a nuance da maturidade. Com o tempo, já conseguimos identificar melhor, quando vamos precisar nos proteger do frio, mas também sabemos quando já é hora de ir ao campo deitar-se ao sol. Se conseguirmos prever a tudo isso, ou mesmo identificar nossas atuais estações interiores, é possível minimizar eventuais sofrimentos.
Em dias de tormenta, coloquemos nossos casacos, fiquemos mais resguardados em nossos lares, não abusemos de nossos vícios, não alimentemos ao que destrói. Façamos que o furacão seja dentro de um ínfimo copo d’água.
Já nos dias de verão, em que os solos são férteis, plantemos as mais belas flores, cultivemos a bosques com os frutos mais doces. Isso talvez nos resguarde a energia para os dias mais calamitosos. Escrevamos cartas de amor, aos que amamos, aos que perdoamos, ao próximo... Cultivemos as virtudes guardadas, para então poder colocá-las ao sol. Quem sabe todos possam, com a beleza que guardas, se inspirar, se renovar, como já o fizeste tu.


Fernando Wolf

terça-feira, 5 de março de 2013

Porto menina vem cá




Quanta calma ti só
Quanto quero por ti
Ver a lua chegar
Bons seus céus dormir

Beijo-te o sol e o mar
A tua pele sentir
Vasta manhã seu lar
Um belo dia um sorrir

Teu rosto meu viajar
Minha boca tua bem vir
Beijo teus sonhos em fá
Faço tuas rimas em mim

Linda alma que há
Repousa-te o corpo ali
Rio calmo a soprar
Vida por ela seguir

Sopre saudade vem cá
Barco traga-te em mim
Corpo sopre pro mar
Pra amor teu perto sentir


Fernando Wolf

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Andar sozinho





Quando se está sozinho, a alma certamente não o será! Estará triste por ti, que fechaste os olhos a ela. Pois justamente quando os olhos estão míopes, é que vem este ardor do peito. Alcalme-te em ti mesmo, feche os olhos para enxergar. Acalme o ar que passa por tuas ventas e sopre para fora de teu corpo as asperezas desta vida. Pois em paz então, poderás navegar por rios brandos de amor. Respire o todo, respire a ti mesmo, pois agora o és. Permitas-te chorar as belezas deste pequeno milagre. Talvez quando enxergares, possas um dia ajudar a outros que andam por aí cegos, como um dia, já andavas tu.



Fernando Wolf

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Arrepender do arrependido





Como se ainda estivesse lá
No momento anterior ao erro
Minhas falas far-se-iam mudas
Minhas mãos não atenderiam
Meu corpo estaria suspenso
E nada deste mal premeditado
Seria feito ou recriado
É no segundo anterior a fala
Na indolência antes do tapa
Na repugnância da inocência
Que meus instintos insistem
Lá que querem me jogar
Mudar o imutável, o já visto
Os olhos agora não veem, só lembram
A desatenta ignorância do ser
Que agora chora por lágrimas secas
Que não molham mais o destino
Mas doem em meio a gemidos
Do desejo não atendido
Dum ser pobre arrependido

Fernando Wolf

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Voa menino






Voa menino voa
A recantos brandos de teu coração
Se tão longe mora tua paz
menino voa,
Vá para onde foge a razão

Feche os olhos como se fosse beijar a vida
Naquela infância... de tolerância
Onde acariciavas o tempo,
como um amigo de teu íntimo
Um assopro no bolo, um momento bom

 Voa menino voa, para bem longe, longe do chão
 Para onde repouses a alma
Escute-a então, no teu sagrado e chore
Enquanto te pedem para ficar com os olhos abertos
Por algo que não amam...
Por algo que fazem sem nenhum prazer

Voa agora, menino voa
Se desfaça das vestes que carrega
Tens em ti a chave, as benesses, as tuas preces
Tens as lembranças de tudo que corre no peito,
Que ama o sujeito refletido
 No lago sereno de sonhos bons
Que mostra a vida, de como é vivida
As coisas sofridas, em meio a guaridas de um nada fugaz

Meu menino voa,
Por oceanos agora podes cruzar
Vendo a calma por sobre nuvens negras
Sob o sol, tens o teu novo lar
Voa para o ventre que te fez salvar
As tarde de manhã segura,
em tua envoltura por sobre o olhar

Sabe menino,
Se um dia voares para longe
Este alguém será ninguém, e não importará mais
Se tens seguido teu próprio caminho,
Sabes que ele é duro, reto e sofrido
Mas agora podes, eu sei que podes
Voar!

Então voa,
Repousas tranquilo por sobre o Jequitibá
E lá quem sabe talvez, um dia
Venha um sabiá lhe assoviar
As tristezas de tempos sofridos
Transformadas em canto do seu próprio pranto
Num nunca mais chorar



Voa menino filho voa
As vestes que cria são ilusões
De antigos achados em quimeras
Quando buscavam soluções
Mas a vida mostrou a eles
Que o jogo não tem razão
Basta ser, basta viver
Como se tudo fosse o pão

Ah menino velho
Por que guardas tantas mágoas no coração?
Se tua mãe falava que devias
Seguir simplesmente a tua razão
Mas se teimas em resolver
O teu destino em se perder
Saibas o preço a pagar
Esta em jogo o próprio viver 
Pois então voa enquanto podes
O teu caminho ninguém vai escolher

Tua sina é tua glória
Insana capta a tua história
Em tristes refrãos de solidão
Repetes ciclos de compreensão

Pois voa menino voa
Teu limite é teu véu, todo o teu céu
Tens as máscaras a vestir, tens a vida a suprir
Mas de qualquer maneira
Sabes a besteira de não viver
A sofrer por sobre o mundo
E em um segundo se perder
És os inicio de tudo, és o fim do mundo
És o idílio a se solver 


Fernando Wolf

terça-feira, 29 de janeiro de 2013




Sei que me esperas
como se o tropismo fosse nossa matemática

Sei que me chamas
     em teus desejos contidos
           em teus beijos perdidos

Sei que me guardas
   em um retrato feio em tua estante
          Tem algo ali de errante

Sei que te levas
     a caminhos que não querias estar
  Por ali caminhar, pelo mero andar


Sei que me esqueces
  A cada vinho um desbotar
Uma lágrima a menos, a secar


Agora levas leve tua vida distante
   junto a certeza não obstante
         de um novo amor, uma nova dor



Tens a bênção em ti do amar
    detens o belo do sofrer
                       Tens uma vida a zelar


Num irremediável tempo de rescisão
                                Um contrato frágil
                 Dum começo vão
Nossas vidas se ataram
  e agora se vão
    vão com o vento,
com o tempo,
        vão...


Fernando Wolf

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

[2012] Leos Carax 'Holy Motors', Entracte 'Let my Baby Ride' Denis Lavan...



O filme mais indescritível que já assisti... com esta cena fantástica (uma das menos bizarras).
E dizem que foi aplaudido por 10 min no festival de Cannes 2012.
Holy Motors, how bizarre...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013




Camomilas dançam em teus olhos
Assim conduzem teus passos
Rasgam de saudades flagrantes
Os ventos de campos distantes
Lá de longe... dormem com teu canto
Igrejas escutam calmas o teu silêncio
Nas tuas lágrimas, a melancolia
E no teu sorriso, o reencontrar d`alegria
Bem sabe quem te ama
Esse amor que sempre clama
Na certeza dum futuro próximo
A “perteza” de tua doce beleza

Fernando Wolf


Um presente de aniversário atrasado!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Eddie Vedder - Society




É um mistério para mim
Nós temos uma ambição que concordamos.
E você pensa que você tem que querer mais do que precisa.
Até você ter tudo, você não estará livre.

Sociedade, sua raça louca.
Espero que não esteja solitária sem mim.

Quando você quer mais do que tem
Você pensa que precisa.
E quando você pensa mais do que você quer
Seus pensamentos começam a sangrar.
Acho que preciso encontrar um lugar maior
Pois quando você tem mais do que imagina,
Você precisa de mais espaço.

Sociedade, sua raça louca.
Espero que não esteja solitária sem mim.
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim.

Tem aqueles achando, mais ou menos, que menos é mais
Mas se menos é mais, como você mantém um placar?
Quer dizer que pra cada ponto que faz, seu nível cai
É como começar do topo
Você não pode fazer isso.

Sociedade, sua raça louca.
Espero que não esteja solitária sem mim.
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim.

Sociedade, tenha piedade de mim
Espero que não fique brava se eu discordar
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim


Eddie Vedder

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Decidi me casar
Propus a minha vida
Decidi casar...
Prometi sinceros votos de bem estar
De bem querer, de bem viver...

Darei a ela tudo de virtuoso
e em seu gozo, a quero plena,
a quero morena dos dias de sol
Quero o seu gosto em minha boca
Quero sua pele em minha roupa
E a todo momento, em seu acalento,
eu vou me findar


Eu hei de cumprir!
De mim tudo que pode ser
De mim tudo que for renascer
A ela será ofertado, será remendado
Sem fim e sem estar em mim,
Qualquer solidão em tristes mãos
Pois agora a tenho
Em versos com o gosto
De seu cálido viver disposto
Que chora... mas sem escravidão


É...
deixo agora a vida conduzir meus pés
Em meio a triste estrada dos que virão
Mas não desanimaremos não!
Contigo hoje eu hei de me casar
E lá, contigo hei de estar
Nas manhas de domingo
Lendo o canto dos canários
Lembrando de nossos calendários
Dos dias que esqueci
De como sozinho um dia
Eu já sofri




Fernando Wolf





O Silêncio das Estrelas - Lenine

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A sua chave






Ah eu tive um amor
Destes que os filmes mostram com calor

Mas como de repente, meio incoerente
Te vi partir, sem ao menos me pedir

Você deslizou entre meus dedos
E de mãos fechadas ajoelhei-me ao chão

Desde que você se foi
A saudade sem piedade desafiou os meus brios

Mas veja bem, não sou mulher de ficar de joelhos
Vendo o futuro esmagar meus desejos

Pois tive que dar chance a quem me queria amor
Mesmo que fosse só para abrandar a essa dor

Sim, inevitável aprender a amar a outro homem
Para esconder os retratos seus estampados em meus olhos

Estava feliz enfim, estava com quem eu escolhi a dedo
Deu-me outros lugares, respirei a outros ares

E naquele tempo em que só o queria era esquecer
Os ventos insistiam em soprar o seu perfume

Disseram-me que estava louco,
Bebendo vinho e destruindo caminhos

Meu bem, algo aconteceu,
Tive a certeza, você não servia mais para ser meu

Eu tinha beijos e abraços apertados
Tinha o amor de meu amado

Mas algo ali, de novo insistia
Sem permissão nenhuma em minha porta bateu, e doeu...

Era você, apaixonado, com os olhos encantados
Por outra que não eu

Soube que era alguém que tomava o seu ar
Tinha sua morada no peito que um dia eu tanto quis estar

Tive vontade de fechar de vez todas as portas
Te chamar de calhorda, esquecer que um dia sequer tive dor

Ah meu bem, ainda tinha a esperança, lá, jogada entre lembranças
Dum novo reencontrar, ali no destino, nas curvas de outros caminhos

De nada se fez, mais uma vez, senão a morbidez
Dum romance que se apagava de vez

Hoje entendo... ah se não fosse o tempo um grande senhor
Que rege as desavenças e reconstrói o amor

Como é fácil esquecer dos dias de chuva e rancor
Como é delicioso lembrar o que nos fez amor

Se um dia o destino resolver brincar
E nossos olhos reencontrar, saiba que a ti sempre guardei o amor

Pois ainda tenho comigo a dor, esta coisa aqui do peito
Que se deita nas paredes, a suspirar em melancolia os dias de calor

Meu bem, ainda sei que guarda a chave da cozinha
E se o tempo lhe fizer lembrar, que te dê coragem de entrar

E sem bater, como quem sempre foi da casa,
Me abrace com cheiro de pão da manhã





Fernando Wolf