terça-feira, 27 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012

Ninho das estações

William Henry Hunt Primroses and Bird’s Nest.

Andei por novos povos
Vi nos olhos outras vidas
E pela televisão os brancos ouvindo música
E ali no chão o capim crescendo entre as pedras
Respirei o ar de não estar ali e, novamente,
O tudo e o todo ficaram suspensos e estagnados
Via no mundo uma repetição dum estado humano
Seus sorrisos nos rostos e os pensamentos ao vento    
Os choros e abraços, os cantos e os ouvidos
Vi tanto em tão pouco...
Eram ciclos que pulsavam em qualquer canto
E quando menos esperava, aquilo já me bastava
Para ver que não adiantava fugir
Aqui ou ali, tudo um dia vai também ruir

Pois agonizo em saber se há de valer
Um dia o sofrer por querer estar ali
Ali em qualquer lugar
Onde deixarei meu corpo a repousar
Como se boiasse num rio de correntes calmas
Sem medo, deixando a água mansa me levar
Sem mais nadar, nem mergulhar...

Talvez um dia recoste meus sapatos
Frente a uma lareira num dia frio
Para deixar enfim o conforto do cobertor
Apaziguar a alma em um ninho de flor
Construído com as pétalas de todos os jardins
Que um dia já secaram e em outros floresceram
Em primaveras e outonos de tempos atrás
Feito de ventos, do ir e vir dos galhos,
De caminhos do nascer e do morrer,
Da potência das sementes e de árvores em flor

Será ali onde um dia eu hei de sentar
Para ver a lua brincar com o sol
Confundindo-nos em dias e noites,
Em ódios e amores, em brigas e afetos
Ali sim, colocar-me-ei de expectador estático
Vendo como um lúcido lunático
O alvorecer beijar a lua e brindar
Vez após vez, ao nascer de nova luz
Que logo cedo a cada manhã
Vêm a alma iluminar






Fernando Wolf

terça-feira, 20 de março de 2012

BIUTIFUL



Um filme que abusa de realidade, mas também mistura o misticismo e a fé. Javier Bardem o ator que interpreta Uxbal (um estelionatário de vários negócios ilícitos, um homem singular que fala com os mortos e usa do dom para ganhar dinheiro sobre os que ficaram neste mundo em sofrimento, um homem que está a morrer...) é o carro chefe do filme. Há muita sensibilidade nas cenas, que mostram a precariedade das relações humanas e, ao mesmo tempo, a força que o amor traz nas mais diferentes situações. O que mais me contagiou foi o personagem do filho de Uxbal que em várias cenas trouxe um sentimento de comoção indescritível. Só assistindo... 

Graffiti Fine Art - Previsão Estendida Oficial

domingo, 18 de março de 2012

quinta-feira, 15 de março de 2012

terça-feira, 13 de março de 2012




I could cry for your wings
I could die without your dreams
Maybe I could…
But then it wouldn`t make any sense at all
Because…
Only my way can follow me around

OM MANI PADME HUM

I could wish for more strength
I could bet my faith
Yes, maybe I did it already…
At least I had time to listen once
And it was so strong that it sealed my mouth

OM MANI PADME HUM

Maybe on a sunny day
My clear eyes will appear
And show me all the beauty
The whole truth of many universes
Imagine! Would it blind me with its strength?
Would there still have pain?

OM MANI PADME HUM

Observe, could I?
Only for a moment observe my mind?
Trying to create its armies
For this noisy battlefield
My own life…

OM MANI PADME HUM

This bright emptiness…
Could it pacify them?
Could it bring light to them?
It would be magical
Wordless… Just to imagine…
Instead war, only that strong noise
Whispering magical words
 Of the silent voice

OM MANI PADME HUM

They told me once
Without any gun
Should I stay beyond the sun
Cause somewhere a strong light
Could make our pure soul bright
Yeah, maybe…

OM MANI PADME HUM

 But I`m weak as hell
My poor soul burns
And my heart fall in suffering
Please, will I ever bear it?
Will it keep away the darkness of mountains?

OM MANI PADME HUM

I wish strength
I wish brightness
And all I still find is darkness
Please, help me to quiet them all
My armies, they are still around
Now quiet! Give me some rest
Please I beg…

OM MANY PADME HUM

I breathe my own soul
There is a steal hope in the air
That brings warmness to my heart
When all around seems to die
And then, I keep observing
Light and darkness playing around
Life moves upside down

OM MANY PADME HUM

And all of the sudden
Peace land softly into my heart again
And this powerful voice
Brings me back to life once more
Silent voice… whisper it again!
My ears may have no fear anymore

OM MANY PADME HUM


Fernando Wolf

sábado, 3 de março de 2012

Menina

Menina!
Naquele dia eu conheci a distância entre a gente
Vi teus olhos azuis transparentes ainda inocentes
Eles refletiam os meus, descrentes, de tempos a mais

Ei menina,
Contava-te lances envolventes, mas meus dentes
Estes já não enganavam nem mesmo ao mais sagaz
Mostravam tristeza pelos véus que a tapas e socos
Foram caindo aos poucos

Mas não desanime,
Se tu tens as feridas ainda tão certas
 Veja em minha face as cicatrizes cobertas
Pois fique tranquila,
Isso também um dia, vai passar

Eu sei!
Tu me falas que nunca mais ficará com outro cara
Mas teu coração ferido ainda terá um dia sua fala
Felizes e belos perfumes de beleza,
Que também, acredite, vão passar...

Ora entenda,
Que não sou um alguém triste como dizes
E nem tu deves o ser, minha pétala alva e delicada...
Dispas as tuas nobrezas e tenhas certeza
Que o teu coração voltará a respirar

Minha cara,
Tenha certeza da tua beleza rara
Que não repousa só em tuas vestes
Mas vos acompanha em tua bela morada
A ecoar na fluidez de tua alma


Pois venha!
Venha comigo agora, vou botar-te a dormir
Contar-te uma história afável e mansa
Para que durmas tranquila em tuas lembranças
E sintas no nascer do sol, um novo regozijar...


Eu beijo tua fronte
E por novos caminhos sobrepostos
Sem olhar para trás,
Eu sigo por entre portas distantes
E despeço-me de minha luz

Adeus,
Com a tua mocidade branda
Recoste agora o teu rosto sobre as mãos
Que acariciam todos os teus dons
Durma agora por sobre
O suave destino que te guarda 



Fernando

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A invenção de Hugo Cabret (The Invention of Hugo Cabret)


Um filme como há muito não assistia. Desenhado de forma delicada e bonita. Conta a estória de um menino que conserta relógios em uma estação de trens em Paris. O menino é órfão e vive uma aventura para desvendar uma mensagem de seu falecido pai que ajudará a moldar o seu destino. Lembro de um trecho entre os dois personagens infantis em que falavam mais ou menos assim: "Os humanos, como as máquinas, quando sem propósito, não funcionam, são como máquinas quebradas." Muito bonito!
Assistam e emocionem-se.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Renascer de cada dia


Era uma praia, não uma praia qualquer, pois era aquela que eles tinham naquele dia. Tinha um gosto especial. Já se davam meses que aquele casal quiçá tinha se oportunizado férias. Era aquilo também um fugir de tudo o que lhes representou de decepções e medos daquele ano tão penoso.
Curtiam as primeiras trocas de intimidade e carinhos longe de tudo. Conheceram-se no caos de uma metrópole há ainda muito pouco. Amores para cá, amores para lá. Sabiam, após muitas das andanças em seus próprios caminhos, que o amor era raro, mas não estático. Sentiam que ali não havia obrigações, pois todos com seus corações sabem da capacidade de aprender e reaprender a amar seja quando for – quando semeado pelo tempo.  
No entanto, o nosso personagem, tão homem, tão contemporâneo, bradava em ondas revoltas. Era ele escravo de seu senhor, de seu corpo, de seus medos. Lembrava mares outros que, como em grandes tempestades, já se pusera. Ainda ali persistiam os erros, os acertos, a gana e os apegos. O mar ainda se jogava com força nas encostas de seu ser. As ondas insistiam em transformá-lo em areia fina e disforme.
Ela, tão mulher, tão dona de si, já se punha desnuda de suas vestes de outros invernos. Estava já adaptada ao clima dos trópicos, à simplicidade daquela vida pacata ali a sua volta. Dizia que um banho no mar brando e morno seria uma boa. Seria um símbolo de renovação da alma, de finalizar um ciclo e o recomeçar de outro.
Mas ele insistia em trazer sua tormenta. Não lhe era aprazível o recostar-se na rede sentindo o vento bater-lhe as bochechas. Afinal inquietava-se pensando de onde vinham aquelas águas do rio e para onde elas iriam. Não se permitia fazer parte daquele rio, que se faz parte do mar, que se faz parte do todo...
Mas Mariana intuindo toda sua energia, pegou nos cabelos de Ricardo e o beijou intensamente e inesperadamente. Por um momento único as suas almas encontraram-se e Ricardo percebeu toda a vida e seu sentido. Era aquilo uma fração do amor em sua forma pura e única. Era aquele momento único em sua existência, impossível não contemplá-lo. Era o primeiro segundo que conseguira desfrutar de seu maior presente: o seu, o deles, o presente.
Fora o amor em forma de paixão que trouxera Ricardo de volta à vida. Agora já não restava outro desejo senão o de olhar aquele mar e sentir o aroma do sal morno. Ensurdecia-se com o barulho de ondas que fechavam suas pestanas a ouvir a força da natureza em seu peito. Não mais seus fantasmas, não mais suas dores e alegrias passadas. Vivia agora aquele momento e tão somente aquilo.
Ricardo então olhou nos olhos de Mariana, pegou sua mão e a recostou por sobre o seu peito. Com os olhos marejados de lágrimas, ouviu a sua alma e falou baixinho: “obrigado”.
Mariana, intuitiva como era, já presumia do que se tratava, pois a feição de Ricardo já era outra agora. Não lhe disse mais nada. Ficaram ali, abraçados por mais algumas horas, presenteando-se com o entardecer do sol que ia se forjando do nácar ao alaranjado e por fim se derramava no mais vivo vermelho por sobre o mar. Fora ali, no cair do dia, que se dera um novo respirar da alma.


Fernando Wolf

Foto: Thayne Soldatelli Andrade
http://soldatelli.blogspot.com/

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012



Por que tanta pele, se o que me mantém aceso está no despir de tua boca?
Por que tantos muros se o que me comove são teus doces olhos em lágrimas?
Por que tantos abraços se o que mantém a ti são tuas idéias de meus embaraços?

Destitua-se de toda a tua dor e venha a mim como for, nua de teus véus e vestes...
Julgue como fora a ti ensinado, mas não esqueça de que aquilo tudo está desgastado
Sufoque-me com tua loucura no verão, mas deixe a mim o frescor outonizado de tua alma



Fernando Wolf 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Repensando a felicidade



Felicidade é dar ouvido ao que há de divino em nós e deixar-se fazer instrumento do que há de mais iluminado no ser. 

Ser feliz é livrar-se do domínio dos medos e vícios que tanto criamos. 

Ser feliz é buscar sabedoria e equilíbrio. 

É busca pelo que há de mais virtuoso no homem. 

Ser feliz é mais do que estar alegre. 

Ser feliz é rir por inteiro, é rir com a alma! 



Fernando Wolf

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A flor de cada jardim


Era um bebê franzino, frágil de dar medo ao tocar. Nascera num dia de domingo, em uma cidade do interior, calma e pacata. Era prematuro, desnudo das armas fisiológicas que o tempo mais que depressa insistiu em lhe privar. A tragédia iminente preocupava a pediatra que, carente dos recursos senão os de sua arte, não saia do lado daquele menino ainda sem nome. Sim era um menino! Com um futuro nome, uma futura namorada, uma futura família, um futuro respirar... Mas naquele momento, o seu presente era a única coisa que realmente importava a todos ao seu lado.
Sua respiração era superficial e ruidosa. Se pudéssemos, daríamos o nosso próprio fôlego para acalmar aquele inspirar agônico. Era só uma vontade.
Nossos destinos se conectaram quando meu telefone tocou pela manhã e uma voz com pressa alertou-me de que haveria uma criança que só teria vaga em um serviço com os devidos suportes a 450 km dali. A viagem duraria 5 horas. Acordei ainda meio cansado de um plantão que acabara de fazer. Tomei um banho e comi qualquer coisa. A ambulância veio às pressas me buscar.
No meio do caminho conferi os equipamentos necessários, pensando nas eventuais e piores tragédias que poderiam transcorrer naquele caso. No hospital todos nos aguardavam e logo já apontaram onde ficava maternidade.
Vi aquele recém-nascido respirando por sua vida em uma campânula de oxigênio. Pensava: será ele capaz de suportar uma viagem tão longa? A angústia tornava a atacar os meus brios. A pediatra apreensiva já me passava suas recomendações e exames. Enquanto isso, preparávamos o bebê na sua incubadora.
A ambulância seguiu em disparada, respeitando as curvas para o conforto do pequeno paciente. Ali meu coração palpitava junto a cada mudança dos sinais vitais do recém-nascido.
Por hora, achei que fosse necessário o suporte com aparelhos, mas logo a criança voltava a dar sinais de estabilidade.
Num destes momentos de maior apreensão, não sei bem o porquê, lembrei-me de uma estória. Fora contada por um belo ser ao qual chamo de pai. Ele capinava um canteiro de macegas e flores velhas. Queria revitalizar a beleza daquele pedaço de terra. Jogara tudo num terreno baldio com seu balde e cansado deixou-o de lado e fora tomar água. Dias mais tarde – contava-me com surpresa – avistara ao mesmo balde, agora já com água da chuva. Ali, uma pequena plantinha com raízes, botava-se em tímidas e ao mesmo tempo imponentes flores. Era como se ela dissesse: “Olhem! Eu ainda tenho vida em mim, eu ainda resisto e mostro-me bela como cada dia deve o ser. Tenho o fio que separa a vida da morte em meu peito, mas enquanto puder escolher, eu escolho viver!”
Inevitável era sentir a vontade de viver daquela criança tal qual a flor que brindava a vida com a água da chuva. Mentalizei a força que a vida é capaz de ter e rezei por aquela criança. O menino, após as cinco horas de incertezas, resistira e chegara bem ao seu destino naquele dia. Lá pôde ganhar o devido cuidado para suportar a sua fragilidade. O dever daquele dia fora cumprido.
Quanto à flor, agora ela têm o seu vaso especial. Virou uma espécie de símbolo que vou demorar a esquecer. A flor da vida, que iluminara aquele dia, mostrou que o amor tem o poder de semear o cuidado a quem quer simplesmente viver...

Fica aqui uma homenagem aos pediatras, enfermeiros, motoristas, funcionários e a todos outros anônimos jardineiros da vida.


Fernando Wolf


Pintura de Claude Monet

domingo, 22 de janeiro de 2012

sábado, 10 de dezembro de 2011

Um senhor



Conheci um homem. Um homem de grande coração, meio mole, pois então. Um homem artista do tempo pintado por cabelos brancos. Levava consigo estórias e dentre elas, uma de amor por oito almas, metade delas feitas, metade resgatadas. Aquele senhor simplório tinha os olhos bons, não menos sofridos, mas bons. Já tinha idade para desistir como muitos por aí. Mas não, ali estava ele de pé, contando-me seus causos.

Eram contos da vida. Sua e só sua singela vida. Lá trás, a superação no sustento de sua faculdade pelos dotes de mecânico que aprendera com o pai. Vivera a infância numa mecânica. Imaginei uma criança de olhos atentos, de suspensório e sapato surrado, argüindo com o pai o funcionamento de máquinas agrícolas tão complexas. Tornou-se doutor. Exercia então a arte de ser médico. Tinha sonhos e ideais na época... agora daquilo nada mais senão sua coleção... suas lembranças de então.

Pois, contou-me suas façanhas de corrigir carros desgastados. Era o brilho que voltava aos olhos. Enrustido de talentos mil, sua coleção de fuscas construiu. Porém exaltante se viu, quando sua especialidade definiu: “sou afinal especialista em DKVs”. O sorriso era contagiante. Senhor do tempo e da paciência, mostrava-se exemplar raro de humano.

Mas algo não saia de minha atenção, sua caixa pequena e transparente com pequenos objetos comuns aos olhos. A caixinha tinha uma feição caseira e nostálgica: um carretel de linha de costura, uma tesourinha, uma rolha de garrafa e uma fita métrica (aquela fita enrolada das costureiras). Obviamente perguntei: “desculpe meu senhor, mas porque trazes tais objetos ao seu labor?” Ele de pronto não respondeu as funções de cada um, mas logo mencionou o nome de sua avó. Estava ele ali, mais uma vez fazendo uma viajem ao tempo. Contava-me: “naquele tempo minha avó possuía aquelas latas onde eram armazenados produtos vindos da cidade, eram raras e por tal, minha avó a utilizava para carregar estes úteis instrumentos, com a diferença que o carretel era feito de madeira.” Agora seus olhos sonhavam a sua infância. Tudo aquilo era bonito e meigo. Era sua identidade resumida a uma caixinha. A caixinha de sua avó.

Ali naquela conversa “de café-da-manhã” eu descobri quão bonito é quando nossa identidade se constrói nas coisas mais simples da vida. No cheiro do pão fresco e de grama molhada. Na sensação de frio debilitante da primeira onda de um mar gelado. Do sorriso dos primos, dos pais, dos irmãos... Do sofá, dos cochilos da tarde, da preguiça. Da recepção calorosa de um cão.

Na despedida daquele encontro singular, as almas agora estavam serenas. Afinal, tudo é tão frágil e mutável, que abençoados são os dias de um homem quando a contemplar este sopro de vida. Bom foi aquele dia.

Fernando Wolf