domingo, 12 de julho de 2015

Amay




O que sentir desta mulher que oferece com as mãos um punhado fresco de manjericão
E imortaliza em terras imersas do seu amor,
Num breve ciclo de sálvias
Doces memórias contornadas por flores roxas de alecrim


O que pensar desta mulher que guardo em mim
Que perfuma os caminhos por onde passam os seus pés delicados
Em passos embalados por ventos que atravessam os campos
E que trazem-na, em cunita, aos braços meus


O que amar de ti senão os verbos dos teus olhos de relva serena
De onde vertem águas puras com poder duma cura
De qualquer flor que se faça triste no meu jardim

A esta mulher nada mais do que o meu amor,
Que ofereço em mudas de flor, terra e capim
Para que possamos cultivar os mais simples sonhos
Neste horizonte sem fim.



FW


segunda-feira, 4 de maio de 2015

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pandora





Se a mente escolhe letras para compor palavras,
que sejam em caixa alta todas as suas mesuras
e que bem baixinha seja,
aquela caixa das agruras...







Fernando Wolf


segunda-feira, 13 de abril de 2015



Aos bons humanos melancólicos, um pequeno debate filosófico sobre a melancolia.

domingo, 5 de abril de 2015

Cura





Se em vida encontrasse frente ao caos a razão
Dela faria ferramenta, enxada e pão

Se a juventude um dia despedir-se nefasta da minha pele
Que não se percam os olhos, a mirá-la no horizonte do mesmo sol que um dia a queimou

Se a calma entregar suas armas além das trincheiras da brutalidade
Que eu tape os sentidos em prece, esperando que se esgote tamanha força banal

Se as verdades deixarem escaras na face de quem as traz
Nas minhas mãos o ungüento de verdades a mais

Se pelos caminhos da terra encontrar a dor
Que torne a sua cura a incumbência do meu amor

E se o amor escorrer pelo peito a se perder de mim
Que ainda ache na compaixão de outros o adubo deste existir



FW



Foto: Sebastião Salgado

segunda-feira, 23 de março de 2015

Além dos sonhos




Em um estado de plena inconformidade, as minhas mãos...
As minhas mãos tocavam trêmulas
Paredes que já não guardavam mais as mesmas medidas
Daquela casa que um dia sonhara em largas escalas
Com o passar de cada frente fria, se reduzia
Ao ponto de ficar menor do que os sonhos que ali dentro cresciam

Dentro de mim, aquele lar que um dia imaginara
Com varandas e  cheiro de mato
Agora fechava as suas janelas e dentro o ar sufocava
Sem respeitar ao menos as árvores que batiam no teto
Sobre o chão, se arranjava um tapete de folhas melancólicas
Caídas mortas, pálidas, estanques de qualquer vida


Queria gritar aos cantos
Que eles não já eram mais meus
Mas quanto mais eu gritava, mais eles se aproximavam do eu
E as raízes que saiam dos meus pés
Se entrincheiravam nas frestas e rachaduras
Buscando fontes potentes e seguras de outras vertentes
Que corriam ao lado de um outro jardim
Do qual nunca havia sequer visto ou ouvido a respeito
Mas que sentia sem razão alguma
Que estava logo ali, entre as folhas caídas
A terra que guarneceria um novo sorrir


A esperança segurou o tempo
As janelas caíram-se uma a uma, exaustas
E as paredes rachadas foram tomadas pelas raízes que corriam campo afora
A sustentar as árvores com suas copas imponentes
De folhas verdes,  que se rasgavam entre telhas e desencontros
O sol da manhã agora transpassava sereno a varanda
E ali, minhas mãos encontravam os teus lábios
Que se perdiam nos meus sonhos
Num eterno sorrir de minh`alma


FW

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

À Ma







Para tu dos meus sonhos

Estão meus discursos teus lábios

A chuva, nossas noites

Deságuam rios d`alma

Em meus desassossegos

De saudades cultivadas

Nos jardins dos teus olhos





FW

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Para João



Quanto às pequenas coisas da vida
É deste chão que vais conhecê-las melhor João
Porque do céu, tudo é muito pequeno
E de lá não vemos o sorriso daquela moça
Nem o cachorro lambendo a criança na praia
Lá de cima é tudo tão longe que as vezes parece sem importância

Claro, para quem nunca foi ao céu como você
Recomendo ir nos dias de "ter que engolir"
Para também entender o quão pequenos somos
De que nada adianta querer ser maior que nosso existir
Pois como as andorinhas que lá passam
Nós aqui de baixo também nos vamos indo
Devagarinho deixando o nosso ninho
Dando adeus àquilo tudo
Esperando do fim, um algo de novo por vir

Então, para a vida ser toda a sua graça
Declamo com toda emoção:

“É hora de tocar o seu chão, João”

Para poder sentir de perto as raízes que sustentam o seu mundo
Daquele tempo com cheiro de grama
Por onde o rio fez a curva
E não quis mais voltar


É quando você recosta a cabeça sobre a areia
Que a perspectiva das ideias mudam
Tudo fica grande de novo
E no dançar sob o sol peneirado das árvores
Em manhãs seguras
Surgem caminhos que voltam a soprar os bons ventos
De quem nunca esqueceu:

“Um dia eu já passei por lá”



Mesmo ainda se os olhos estiverem mais cansados
Sobre suas pernas franzinas e humildes
O quão bom João é poder reinventar
Para enfim levantar daquele banco de praça
Nestas noites serenas, de brisa modesta
E num primeiro novo passo, redescobrir todo o prazer
De simplesmente se poder continuar
Neste mundo grande, a caminhar

João, meu caro,
podes sim acreditar


FW

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Fogo





Como o vento que soprava brasas
Perguntava-me o incerto
Se poeta seria...

Respondia à luz do dia
Que não bem o sabia
Mas tinha na casa de meus avós
A força de repostas seguras
Guardadas atrás do portão

A poesia que me vem soprar ao ouvido
Compõe a fórmula de minha antiga alquimia
E reacende um fogo que arde
A me iluminar em sua imensidão
Esta tinta que sai em grafia do coração
Que galopa afoita sobre o chão de versos, diversos
Vindos lá da lonjura do incerto
Que aos poucos se aproximam do que tenho de mais perto
O amor a vida
Sim!
Um amante dela me tenho por certo
E portanto,
Poeta não bem o sou
Pois bem o que sou

Um não repleto 
Que escreve ao seu grande amor

FW