domingo, 8 de abril de 2012

Smooth music...


Gare du Nord - Marvin and Miles

sábado, 7 de abril de 2012

Quem ama não perdoa


Quem ama não perdoa. Quão agressiva esta frase quando jogada aos ouvidos pela primeira vez. Era vinda  de alguém que respeitava, um de meus mestres. O perdoar sempre pareceu-me tão afável. Ainda o é, afinal. Estas quatro palavras ecoavam no peito como que sem pedir licença, “quem ama não perdoa”. Era um desafio, tinha de assimilar aquilo e achar o seu sentido. Foi como se impusessem um enigma. A busca de sua solução consumiria o tempo e os sentidos por várias e repedidas vezes após ser colocada em meus pensamentos.
Havia uma sensação contraditória e angustiante. Eram os meus valores também colocados à prova. Como que podia aquele "perdoar" que é sinônimo do bem, que traz a paz, cura as guerras e se faz elevado, como que o "perdoar" pode não fazer parte das ações de quem ama?
Era então mais fácil desacreditar e dar um tempo daquilo tudo. Continuaria eu com os pensamentos tão usuais ao ser.
Mas, a vida flui em mudanças e movimento. Negar talvez não bastasse mais após certa monta. E, quando já achava tarde, uma luz, como que de algum lugar, dum nada, dum silêncio, veio iluminar todas as angústias. Pois, o amor, este sim, mostrou sua face. Era agora de forma clara, que via o amor como um sentimento mais elevado. Mais do que paixões, mais do que a carne que movimenta nossos corpos. O amor era e é sim mais elevado que o perdão, apesar de toda sua carga de nobreza.
Quem consegue amar de forma pura e plena, eleva-se por sobre o perdão. Por isso, quando sentimos amor verdadeiro, talvez não precisemos perdoar. Quem consegue amar assim, simplesmente ama ao todo, ao que há de perfeito e imperfeito num ser, num estado, numa ação, seja o que for.
Ah sim, o amar... poucos o conseguem de forma tão plena, poucos são os que chegam lá – já falava este  mesmo mestre. Para tanto, para senti-lo, é preciso libertar-se de muitos véus... E é dura a jornada até o amor mais puro, livres de todos os apegos, livres de tudo o que corrompe o ser.
Como então chegar lá? Como amar plenamente? Por enquanto, valho-me da máxima: É no presente o começo de qualquer feito, seja ele grande ou mísero. Pois se quiseres amar de forma límpida e pura, não é jogando-se em lamaçais que irás consegui-lo. Se quiseres amar para não mais precisar do perdoar, é preciso jogar-se nos rios de vertentes nobres e mutáveis do seu presente. Será ali, dia após dia, que conseguirás aprender a amar a correnteza que leva o que não morre em ti e que flui por entre os tempos.

Fernando Wolf

Para para paradise

Florianópolis 2012

Pablo Neruda - Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda

sábado, 31 de março de 2012



Para quem acompanha o blog, está aí a flor sobrevivente da história. Agora em seu próprio vaso!
Aos que não a conhecem ainda, segue o link: 

terça-feira, 27 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012

Ninho das estações

William Henry Hunt Primroses and Bird’s Nest.

Andei por novos povos
Vi nos olhos outras vidas
E pela televisão os brancos ouvindo música
E ali no chão o capim crescendo entre as pedras
Respirei o ar de não estar ali e, novamente,
O tudo e o todo ficaram suspensos e estagnados
Via no mundo uma repetição dum estado humano
Seus sorrisos nos rostos e os pensamentos ao vento    
Os choros e abraços, os cantos e os ouvidos
Vi tanto em tão pouco...
Eram ciclos que pulsavam em qualquer canto
E quando menos esperava, aquilo já me bastava
Para ver que não adiantava fugir
Aqui ou ali, tudo um dia vai também ruir

Pois agonizo em saber se há de valer
Um dia o sofrer por querer estar ali
Ali em qualquer lugar
Onde deixarei meu corpo a repousar
Como se boiasse num rio de correntes calmas
Sem medo, deixando a água mansa me levar
Sem mais nadar, nem mergulhar...

Talvez um dia recoste meus sapatos
Frente a uma lareira num dia frio
Para deixar enfim o conforto do cobertor
Apaziguar a alma em um ninho de flor
Construído com as pétalas de todos os jardins
Que um dia já secaram e em outros floresceram
Em primaveras e outonos de tempos atrás
Feito de ventos, do ir e vir dos galhos,
De caminhos do nascer e do morrer,
Da potência das sementes e de árvores em flor

Será ali onde um dia eu hei de sentar
Para ver a lua brincar com o sol
Confundindo-nos em dias e noites,
Em ódios e amores, em brigas e afetos
Ali sim, colocar-me-ei de expectador estático
Vendo como um lúcido lunático
O alvorecer beijar a lua e brindar
Vez após vez, ao nascer de nova luz
Que logo cedo a cada manhã
Vêm a alma iluminar






Fernando Wolf

terça-feira, 20 de março de 2012

BIUTIFUL



Um filme que abusa de realidade, mas também mistura o misticismo e a fé. Javier Bardem o ator que interpreta Uxbal (um estelionatário de vários negócios ilícitos, um homem singular que fala com os mortos e usa do dom para ganhar dinheiro sobre os que ficaram neste mundo em sofrimento, um homem que está a morrer...) é o carro chefe do filme. Há muita sensibilidade nas cenas, que mostram a precariedade das relações humanas e, ao mesmo tempo, a força que o amor traz nas mais diferentes situações. O que mais me contagiou foi o personagem do filho de Uxbal que em várias cenas trouxe um sentimento de comoção indescritível. Só assistindo... 

Graffiti Fine Art - Previsão Estendida Oficial

domingo, 18 de março de 2012

quinta-feira, 15 de março de 2012

terça-feira, 13 de março de 2012




I could cry for your wings
I could die without your dreams
Maybe I could…
But then it wouldn`t make any sense at all
Because…
Only my way can follow me around

OM MANI PADME HUM

I could wish for more strength
I could bet my faith
Yes, maybe I did it already…
At least I had time to listen once
And it was so strong that it sealed my mouth

OM MANI PADME HUM

Maybe on a sunny day
My clear eyes will appear
And show me all the beauty
The whole truth of many universes
Imagine! Would it blind me with its strength?
Would there still have pain?

OM MANI PADME HUM

Observe, could I?
Only for a moment observe my mind?
Trying to create its armies
For this noisy battlefield
My own life…

OM MANI PADME HUM

This bright emptiness…
Could it pacify them?
Could it bring light to them?
It would be magical
Wordless… Just to imagine…
Instead war, only that strong noise
Whispering magical words
 Of the silent voice

OM MANI PADME HUM

They told me once
Without any gun
Should I stay beyond the sun
Cause somewhere a strong light
Could make our pure soul bright
Yeah, maybe…

OM MANI PADME HUM

 But I`m weak as hell
My poor soul burns
And my heart fall in suffering
Please, will I ever bear it?
Will it keep away the darkness of mountains?

OM MANI PADME HUM

I wish strength
I wish brightness
And all I still find is darkness
Please, help me to quiet them all
My armies, they are still around
Now quiet! Give me some rest
Please I beg…

OM MANY PADME HUM

I breathe my own soul
There is a steal hope in the air
That brings warmness to my heart
When all around seems to die
And then, I keep observing
Light and darkness playing around
Life moves upside down

OM MANY PADME HUM

And all of the sudden
Peace land softly into my heart again
And this powerful voice
Brings me back to life once more
Silent voice… whisper it again!
My ears may have no fear anymore

OM MANY PADME HUM


Fernando Wolf

sábado, 3 de março de 2012

Menina

Menina!
Naquele dia eu conheci a distância entre a gente
Vi teus olhos azuis transparentes ainda inocentes
Eles refletiam os meus, descrentes, de tempos a mais

Ei menina,
Contava-te lances envolventes, mas meus dentes
Estes já não enganavam nem mesmo ao mais sagaz
Mostravam tristeza pelos véus que a tapas e socos
Foram caindo aos poucos

Mas não desanime,
Se tu tens as feridas ainda tão certas
 Veja em minha face as cicatrizes cobertas
Pois fique tranquila,
Isso também um dia, vai passar

Eu sei!
Tu me falas que nunca mais ficará com outro cara
Mas teu coração ferido ainda terá um dia sua fala
Felizes e belos perfumes de beleza,
Que também, acredite, vão passar...

Ora entenda,
Que não sou um alguém triste como dizes
E nem tu deves o ser, minha pétala alva e delicada...
Dispas as tuas nobrezas e tenhas certeza
Que o teu coração voltará a respirar

Minha cara,
Tenha certeza da tua beleza rara
Que não repousa só em tuas vestes
Mas vos acompanha em tua bela morada
A ecoar na fluidez de tua alma


Pois venha!
Venha comigo agora, vou botar-te a dormir
Contar-te uma história afável e mansa
Para que durmas tranquila em tuas lembranças
E sintas no nascer do sol, um novo regozijar...


Eu beijo tua fronte
E por novos caminhos sobrepostos
Sem olhar para trás,
Eu sigo por entre portas distantes
E despeço-me de minha luz

Adeus,
Com a tua mocidade branda
Recoste agora o teu rosto sobre as mãos
Que acariciam todos os teus dons
Durma agora por sobre
O suave destino que te guarda 



Fernando

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A invenção de Hugo Cabret (The Invention of Hugo Cabret)


Um filme como há muito não assistia. Desenhado de forma delicada e bonita. Conta a estória de um menino que conserta relógios em uma estação de trens em Paris. O menino é órfão e vive uma aventura para desvendar uma mensagem de seu falecido pai que ajudará a moldar o seu destino. Lembro de um trecho entre os dois personagens infantis em que falavam mais ou menos assim: "Os humanos, como as máquinas, quando sem propósito, não funcionam, são como máquinas quebradas." Muito bonito!
Assistam e emocionem-se.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Renascer de cada dia


Era uma praia, não uma praia qualquer, pois era aquela que eles tinham naquele dia. Tinha um gosto especial. Já se davam meses que aquele casal quiçá tinha se oportunizado férias. Era aquilo também um fugir de tudo o que lhes representou de decepções e medos daquele ano tão penoso.
Curtiam as primeiras trocas de intimidade e carinhos longe de tudo. Conheceram-se no caos de uma metrópole há ainda muito pouco. Amores para cá, amores para lá. Sabiam, após muitas das andanças em seus próprios caminhos, que o amor era raro, mas não estático. Sentiam que ali não havia obrigações, pois todos com seus corações sabem da capacidade de aprender e reaprender a amar seja quando for – quando semeado pelo tempo.  
No entanto, o nosso personagem, tão homem, tão contemporâneo, bradava em ondas revoltas. Era ele escravo de seu senhor, de seu corpo, de seus medos. Lembrava mares outros que, como em grandes tempestades, já se pusera. Ainda ali persistiam os erros, os acertos, a gana e os apegos. O mar ainda se jogava com força nas encostas de seu ser. As ondas insistiam em transformá-lo em areia fina e disforme.
Ela, tão mulher, tão dona de si, já se punha desnuda de suas vestes de outros invernos. Estava já adaptada ao clima dos trópicos, à simplicidade daquela vida pacata ali a sua volta. Dizia que um banho no mar brando e morno seria uma boa. Seria um símbolo de renovação da alma, de finalizar um ciclo e o recomeçar de outro.
Mas ele insistia em trazer sua tormenta. Não lhe era aprazível o recostar-se na rede sentindo o vento bater-lhe as bochechas. Afinal inquietava-se pensando de onde vinham aquelas águas do rio e para onde elas iriam. Não se permitia fazer parte daquele rio, que se faz parte do mar, que se faz parte do todo...
Mas Mariana intuindo toda sua energia, pegou nos cabelos de Ricardo e o beijou intensamente e inesperadamente. Por um momento único as suas almas encontraram-se e Ricardo percebeu toda a vida e seu sentido. Era aquilo uma fração do amor em sua forma pura e única. Era aquele momento único em sua existência, impossível não contemplá-lo. Era o primeiro segundo que conseguira desfrutar de seu maior presente: o seu, o deles, o presente.
Fora o amor em forma de paixão que trouxera Ricardo de volta à vida. Agora já não restava outro desejo senão o de olhar aquele mar e sentir o aroma do sal morno. Ensurdecia-se com o barulho de ondas que fechavam suas pestanas a ouvir a força da natureza em seu peito. Não mais seus fantasmas, não mais suas dores e alegrias passadas. Vivia agora aquele momento e tão somente aquilo.
Ricardo então olhou nos olhos de Mariana, pegou sua mão e a recostou por sobre o seu peito. Com os olhos marejados de lágrimas, ouviu a sua alma e falou baixinho: “obrigado”.
Mariana, intuitiva como era, já presumia do que se tratava, pois a feição de Ricardo já era outra agora. Não lhe disse mais nada. Ficaram ali, abraçados por mais algumas horas, presenteando-se com o entardecer do sol que ia se forjando do nácar ao alaranjado e por fim se derramava no mais vivo vermelho por sobre o mar. Fora ali, no cair do dia, que se dera um novo respirar da alma.


Fernando Wolf

Foto: Thayne Soldatelli Andrade
http://soldatelli.blogspot.com/